A crença dos gregos na existência separada de alma
e corpo (o chamado dualismo) não surgiu de uma hora para a outra, mas
evoluiu ao longo de séculos, consolidando-se formalmente entre os séculos VI
a.C. e IV a.C.. [1, 2]
A compreensão dessa evolução divide-se em três
grandes momentos da história grega:
1. Período Homérico (Séculos XII
a VIII a.C.): A alma como um "sopro" fraco
Nos poemas de Homero (Íliada e Odisseia),
os gregos não tinham um conceito de dualismo mente-corpo como temos
hoje. A palavra psyché (alma) significava apenas o "sopro de
vida". [1, 2]
·
Enquanto
a pessoa estava viva, a inteligência e as emoções eram atribuídas a órgãos
físicos (como o coração ou o diafragma).
·
Quando o
indivíduo morria, a psyché deixava o corpo como uma "sombra"
ou "fantasma" sem consciência e ia para o submundo (o Hades),
enquanto o corpo morto era visto como o verdadeiro "eu" que restou. [1, 2, 3]
2. Século VI a.C.: O Orfismo e
Pitágoras (A reviravolta espiritual)
A grande mudança começou no século VI a.C.
com o surgimento dos mistérios órficos (uma corrente religiosa) e com o
filósofo Pitágoras. Eles introduziram ideias revolucionárias para a
Grécia: [1, 2]
·
A alma
passou a ser vista como a essência imortal do ser humano, algo divino
que preexiste ao corpo.
·
Eles
introduziram o conceito de transmigração das almas (reencarnação), onde a alma
passa por vários corpos para se purificar. [1, 2, 3]
3. Século IV a.C.: Platão e a
formalização do Dualismo
O conceito ganhou sua forma filosófica definitiva e
moldou o pensamento ocidental através de Platão (428–347 a.C.). Platão
dividiu a realidade de forma rígida: [1, 2,
3]
·
O Corpo (Soma): Pertence ao mundo sensível e material. É mortal,
imperfeito e considerado por ele como o "cárcere" ou a prisão da
alma.
·
A Alma (Psyché): Pertence ao mundo inteligível (das ideias). É
imortal, detentora do verdadeiro conhecimento e do intelecto. [1, 2, 3, 4]
Pouco depois, Aristóteles (384–322 a.C.)
modificou essa visão ao propor o hilemorfismo, defendendo que o corpo é
a matéria e a alma é a forma, argumentando que os dois operam juntos como uma
unidade inseparável enquanto vivos. [1]
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