sábado, 9 de maio de 2026

REFLEXÕES TEOLÓGICAS SOBRE O CORPO NO ANTIGO TESTAMENTO

 

REFLEXÕES TEOLÓGICAS SOBRE O CORPO NO ANTIGO TESTAMENTO

 A língua hebraica não possui um termo que possa designar, propriamente, o corpo humano. O termo basar está relacionado com a condição efêmera e pode ser traduzido por carne, corpo, parentesco e fragilidade. No Novo Testamento, nos escritos paulinos, o corpo conquista uma relevância antropológica e teológica. UM DOS SIGNIFICADOS DO TERMO “CORPO” DIZ RESPEITO À EXISTÊNCIA CONCRETA DO SER HUMANO. Na visão paulina, a condição contingente, corporal e existencial do ser humano é expressa com dois termos gregos: sarx e soma. O vocábulo sarx, cujo correspondente é o hebraico basar, significa, em geral, a condição carnal comum aos homens e animais. Paulo o restringe à condição carnal humana. Sarx não se refere a uma parte, mas ao ser humano na sua totalidade visível, física e externa. Trata-se da condição débil, frágil, desejante, mundana, solidária e mortal do ser humano. É o ser humano exposto ao pecado e à corrupção. A dimensão sarx designa a solidariedade do ser humano com a criação e o seu distanciamento de Deus (BULTMANN, 2004, p. 291-298; ROBINSON, 1968, p. 25-36; RUIZ DE LA PEÑA, 1988, p. 72-74). O vocábulo sarx tem uma correspondência com soma (corpo), que por sua vez designa o ser humano todo. O termo soma designa a dimensão externa, física, mundana, solidária, relacional e sexual do ser humano. Soma não é algo que o ser humano tem, mas o que ele é. O termo uma proximidade com o conceito de personalidade. O ser humano todo é uma realidade somática. Soma é Ano XXXI - Nº 106 - Set - Dez 2023 149 REVISTA DE CULTURA TEOLÓGICA ISSN - Eletrônico 2317-4307 http://revistas.pucsp.br/culturateo o ser humano solidário com a criação e orientado para Deus. Paulo fala de ressurreição do corpo e não carne (BULTMANN, 2004, p. 247-259; ROBINSON, 1968, p. 36-44; RUIZ DE LA PEÑA, 1988, p. 74-77). A frontalidade bíblica e os primeiros séculos do cristianismo, até por volta dos inícios do século III, o corpo era valorizado e visto de forma positiva. O corpo era visto como sede da imagem de Deus, a realidade assumida por Cristo na encarnação e que estava destinado a participar da ressurreição no último dia. Foi a partir da escola de Alexandria (séc. III) que o corpo começou a ser tratado de forma marginal na antropologia e na teologia. A revalorização teológica do corpo começou na segunda metade do século XX, no contexto da consideração teológica de temas antropológicos (morte, liberdade, pessoa, etc.), escatológicos (ressurreição da carne, a participação do corpo na vida pós-mortal, a dimensão escatológica do presente e da atividade humana, etc.) e cristológicos (encarnação, a relação entre cristologia e antropologia, etc.). O corpo passou a ser considerado como um verdadeiro objeto de reflexão teológica. Assim, começou a surgir uma produção reflexiva e bibliográfica sobre o corpo. Nesse contexto de uma recuperação teológica e do surgimento de produção bibliográfica em torno do corpo, pode dizer que o corpo “não é mais um túmulo, mas aquilo que ressurge do túmulo, o que não se encontra seu lugar no túmulo” (GESCHÉ, 2009, p. 67). O corpo é talvez o lugar teológico por excelência tanto do ser humano como de Deus. Pelo corpo, o ser humano vai ao encontro de Deus e Deus vem ao seu encontro. “Antropologicamente, se posso chegar verdadeira e realmente até Deus só mediante meu corpo, ou seja, por meio do meu estar-no-mundo em todas as suas dimensões, também Deus só pode vir até mim, nascer em mim, encarnando-se, inserindo-se em meu corpo de desejo, formando corpo comigo, isto é, correspondendo efetivamente a minhas aspirações [...]; do contrário ele permanecerá heterogêneo a mim e sem acesso a minha vida concreta atual, ele tornar-se-á uma abstração literalmente insignificante” (FAMERÉE, 2009, p. 26). O corpo é o lugar do encontro com Deus, com o outro, com a criação e com o próprio ser humano. O corpo não é um oponente ou inimigo de Deus, mas o princípio antropológico mediador do encontro com ele. O corpo é templo do Espírito Santo (1Cor 3,16; 6,19). O ser humano é um santuário ambulante, uma igreja a céu aberto. O corpo é um território sagrado e um espaço de manifestação de Deus. “Habitando na corporeidade humana, o Espírito Santo faz do ser humano seu templo, sua morada. O cristianismo traz [...] o fato de que o eixo do Sagrado é deslocado do templo, lugar de culto e de oração tradicional, para o ser humano, para a corporeidade e para a carne” (MILLEN; BINGEMER, 2005, p. 201). O corpo é o ponto de união e de estruturação de vários temas da fé cristã (salvação, espiritualidade e outros). Teologicamente, não é possível falar de Deus, do ser humano, das relações inter-humanas e da vida pós-mortal, sem passar pela mediação do corpo. Na fé cristã, tudo gravita em torno do corpo. “O tema da corporeidade, como interpretada pela Escritura cristã, poderia bastar para constituir a inteligibilidade de toda a mensagem cristã. O cristianismo seria como um tratado e uma prática do corpo” (GESCHÉ, 2009, p. 65). O corpo é um fator determinante para a interpretação cristã da antropologia e da teologia. Ele é o ponto de intersecção entre Deus e o ser humano. “O corpo não é só um caminho de Deus para o ser humano e da criatura para o seu Senhor: é a encruzilhada dessa dupla caminhada” (REIJNEN, 2009, p. 205). A teologia trata da relação entre Deus e o ser humano, passando pela mediação do corpo. “A carne, a substancialidade do corpo, a corporeidade do homem, ela é o lugar propriamente dito do encontro entre a criatura e o Criador; ela é o que reúne o meio e o fim, o sentido definitivo e não provisório, ou, em outras palavras, ela é Cristo” (ALEXANDRE, 2009, p. 107). O corpo está intimamente relacionado com os sacramentos. O corpo é mediação necessária para a realização das ações graciosas dos sacramentos. “Os sacramentos nos dizem que ao invés de colocar obstáculo à comunicação com Deus, o corpo é o próprio ambiente em que tem lugar a verdade dessa comunicação” (CHAUVET, 2009, p. 130). No batismo, o corpo é lavado; na crisma, o corpo é ungido; na eucaristia, o corpo é alimentado; na penitência, o corpo é perdoado; na unção dos enfermos, o corpo é reabilitado; na ordem, o corpo é consagrado e no matrimonio, o corpo é unido a outro corpo. O corpo, também, é o veículo mediador da oração e da espiritualidade cristã. A relação com Deus, no nível pessoal e comunitário, se dá através do corpo. Assim, o corpo se apresenta como um elemento integrante e estruturante das práticas espirituais e da espiritualidade cristãs. O desenvolvimento da espiritualidade não se dá pelo afastamento, mas pela aproximação do corpo. A espiritualidade não é algo que vem de fora e afeta o corpo, mas uma dinâmica que emerge de sua interioridade. O espiritual não é contrário e nem nega o corpóreo, mas eclode de seu âmago desejante de comunhão. A espiritualidade é uma forma de humanização e de um florescimento da imagem de Deus impressa na condição humana. A espiritualidade não exige uma mortificação e nem uma rejeição do corpo, mas uma valorização e afirmação da realidade corpórea. Trata-se de uma espiritualidade encarnada no corpo e inserida no contexto social, político, cultural e econômico em que a vida acontece. O corpo está relacionado com as verdades nucleares da fé cristã (criação, encarnação, ressurreição e ascensão). O corpo humano faz parte da obra criadora de Deus. Ele não é um produto marginal que surgiu do acaso e por acaso na história do ser humano, mas algo criado e desejado por Deus. O corpo criado por Deus é assumido na encarnação do Verbo eterno. Pela mediação do Verbo, Deus se faz corpo, matéria e história. O corpo criado e assumido na encarnação, pelo Verbo eterno, foi ressuscitado. A participação na ressurreição de Cristo não está reservada a um princípio antropológico (corpo ou alma), mas à condição humana na sua totalidade. Na ressurreição, o corpo não é abandonado, mas renovado e transformado qualitativamente. O corpo ressuscitado é recriado e purificado de suas negatividades e de seus limites (condição espaço-temporal, provisoriedade, pecado, morte, sofrimento etc.). A identidade corporal é mantida na ressurreição inaugurada por Cristo, “o primogênito dentre os mortos” (Cl 1,18). Na ressurreição de Cristo, a condição humana assumida alcança sua plenitude ontológica. Pela mediação do corpo, a condição temporal, mundana, social e histórica do ser humano já participa da vida de Deus, através da ressurreição de Cristo. O ser humano alcançou sua finalidade cristã: participar do ser de Deus. O corpo, a carne e o ser humano conquistaram sua perfeição. O corpo criado por Deus, assumido pelo Verbo eterno na encarnação, glorificado na ressurreição do Filho pelo Pai é ascendido à realidade definitiva (Lc 24,50-51; At 1,9-11). O corpo assumido é elevado e consagrado eternamente, pela mediação da ascensão de Jesus Cristo. Isso significa que o corpo assumido não foi um revestimento provisório da encarnação do Verbo. O corpo não foi instrumentalizado e nem desprezado pelo Verbo. Na ascensão de Cristo, a antropologia, por antecipação, se torna eternamente teologia. O corpo foi acolhido no seio eterno de Deus. Por isso, a ascensão de Cristo já a vitória da carne, do corpo e da condição humana. Na assunção de Maria, o corpo feminino da mãe de Jesus, é eternamente consagrado a Deus. Na assunção, a totalidade da pessoa de Maria é plenificada. A assunção celebra a exaltação e glorificação de um corpo feminino e materno. A assunção “exalta a feminilidade corpórea, exalta o corpo da mulher que na plenitude da sua declinação sexuada acede à glória e à divinização” (MILITELLO, 2010, p. 264). 2.2. A ressurreição do corpo O termo “ressurreição” significa “levantar”, “ficar de pé”. O morto geralmente está deitado. É a imagem da morte como sono eterno. Ressuscitar significa acordar do sono letal. A ressurreição de um morto pode ser concebida de duas maneiras: restituição da vida física e dádiva de uma nova e permanente condição de vida escatológica. A Escritura se debruça sobre a segunda opção como ressurreição no sentido transcendente e escatológico. A ressurreição escatológica aparece no final do Antigo Testamento, particularmente em Dn 12,2, 2Mc 7,9.11.23 e Sb 3,1-9. Enquanto destino definitivo do crente, o Novo Testamento fala de ressurreição dos mortos (At 24,21; 1Cor 15,12-13.21.42; Hb 6,2 etc.) ou dentre os mortos (At 4,2; Lc 20,35 etc.) e não da ressurreição do corpo. No entanto, é possível pressupor que a ressurreição dos mortos se trata da ressurreição corpórea. A concepção da ressurreição corpórea surgiu como interpretação da ressurreição dos mortos em geral (GNILKA, 1970, p. 1310-1311). O evento da ressurreição de Jesus é fato real, objetivo, ocorrido e testemunhado, porém não é narrado no Novo Testamento. Narra-se o tumulo vazio e as aparições de Jesus ressuscitado. A ressurreição de Jesus não consiste num retorno à vida física. Não se trata de um símbolo e nem de uma simples esperança, mas Jesus de fato entrou na vida gloriosa com sua totalidade antropológica, em corpo e alma. Sua ressurreição é um fato de ordem transcendente que não pertence à investigação histórica, mas é objeto da fé. O crucificado foi ressuscitado por Deus e se apresenta com uma nova corporeidade. A ressurreição introduz Jesus numa nova condição escatológica de vida como glorificada e exaltada (Rm 10,9; 14,9; Ef 1,21; Fl 2,7-11; Cl 1,18). O efeito salvífico da ressurreição de Jesus consiste na comunicação de uma vida àqueles que creem nele. A ressurreição de Jesus é o princípio da ressurreição do cristão para a vida eterna. O Deus que ressuscitou Jesus dentre os mortos ressuscitará também o crente (2Cor 4,14). Aqueles que morrem com Cristo viverão com ele (2Tm 2,11). Jesus é a ressurreição e a vida e aquele que nele crê será ressuscitado no último dia (Jo 11,25; 6,39-44.54) (MCKENZIE, 1983, p. 791-793). Em 1Cor 15, Paulo assinala a evolução conceitual da ressurreição dos mortos para a ressurreição corpórea. O texto apresenta quatro dimensões: a unidade do ser humano todo (todo o ser humano é destinado a ressurgir), transformação (a ressurreição não é uma mera continuação com estado da existência presente), o futuro (a vida nova que o crente possui em Cristo é uma antecipação da ressurreição) e a necessidade da intervenção de Deus (a ressurreição está baseada na potência de Deus e não de uma aspiração natural do ser humano) (MAGGIONI, 2010, p. 1173). Em 1Cor 15,35-42, para responder ao “como” da ressurreição, Paulo sublinha a iniciativa de Deus: Deus concede à semente um corpo tal como decidiu e quis. Deus é o criador do corpo do primeiro ser humano e de cada ser humano atualmente. A relação entre o grão semeado e a planta adulta ilustra essa questão. Há uma morte do grão e uma ressurreição da planta. Cada semente possui um corpo específico que consiste em sua identidade. A continuidade da inciativa de Deus respeita a identidade do corpo em suas mudanças. Em 1Cor 15,42-44, o corpo corruptível, ressuscita incorruptível; semeado desprezível, ressuscitado glorioso; semeado fraco, ressuscitado potente; semeado um corpo psíquico, ressuscita um corpo espiritual. Trata-se da mesma pessoa que experimenta a glória depois de ter provado a miséria, a corrupção e a fraqueza. “É o corpo que indica a continuidade e é sobre ele que se exercem as iniciativas de Deus. Essa continuidade corporal, somática, é encarada como prosseguimento através de uma transformação profunda, radical e definitiva do ser: ressurreição” (CARREZ, 1970, p. 1283). Jesus ressuscitou da morte também corporalmente com toda sua história de vida. Ele comunicou o amor de Deus aos seres humanos de modo totalmente corporal: em sua palavra libertadora, sua ação salvífica e sua morte redentora. “Isso tudo é conservado em seu corpo de ressurreição e levado junto para a vida de Deus; dá-se ao corpo de Cristo consumado no céu sua forma irrevogavelmente vinculada à terra; converte-o no espaço de vida salvífico para todos os outros homens, acolhidos neste corpo do ressuscitado com sua história de vida concreta” (KEHL, 2001, p. 133). A ressurreição corporal do crente constitui a última e necessária consequência da ação de Deus na ressurreição de Jesus. Há conexão interna e causal entre a ressurreição de Cristo e a ressurreição geral dos mortos. Os mortos ressuscitam porque Jesus Cristo ressuscitou. Jesus não é simplesmente um exemplo ou um caso que pertence à cadeia da ressurreição dos mortos, mas é o primogênito e inaugurador do mundo dos ressuscitados. A ressurreição de Cristo é fundamento e força constitutiva da ressurreição dos mortos. O Deus que ressuscitou Jesus também ressuscitará aquele que nele crê (1Cor 6,14). A salvação definitiva que Jesus Cristo oferece pressupõe a ressurreição corporal. A ressurreição não abarca uma parte do ser humano, mas sua totalidade antropológica. O corpo é parte integrante da ressurreição. Para Paulo, a negação da ressurreição corporal desintegra os fundamentos da fé na ressurreição e acaba com a genuína esperança da salvação, que não pode ser senão uma salvação encarnada e escatológica. No curso da história da teologia, houve correntes como o docetismo, o gnosticismo, o maniqueísmo e o catarismo que negavam a dignidade do corpo. Pautados em uma antropologia dualista e uma visão espiritualista, concebiam o corpo como indigno de ressurreição e de salvação. O corpo, a carne, a criação e a sexualidade eram vistos de forma pejorativa. O único princípio antropológico digno de salvação era a alma. Diante dessas correntes, o cristianismo defendeu a dignidade do corpo e sua participação na vida ressuscitada. A ressurreição é evento escatológico que abarca a totalidade antropológica. Em sintonia com a visão bíblica, a teologia defende a fundamentação cristológica da ressurreição. A ressurreição de Cristo é o fundamento da ressurreição dos mortos. Defende-se identidade entre o corpo da existência física e o corpo da existência ressuscitada. O mesmo sujeito da existência presente o será da existência escatológica, porém transformado. A ressurreição possui uma dimensão corpórea, corporativa e universal. A ressurreição tem como destinatário o ser humano, a Igreja e a sociedade. Nesse contexto, 1Cor 15 é o mais usado para a fundamentação da ressurreição dos mortos. A ressurreição é associada à criação, à encarnação, à parusia, ao juízo e à salvação. O Deus que cria e o mesmo ressuscitará o ser humano no último dia. A ressurreição é vista como uma recriação do corpo e do ser humano. O corpo assumido na encarnação está destinado à ressurreição. Tudo que foi assumido será salvo. O evento da ressurreição ocorrerá por ocasião da vinda gloriosa de Jesus no final dos tempos. Por ocasião da ressurreição, a alma que se separou do corpo na morte o reencontrará na sua forma gloriosa, restabelecendo a unidade antropológica. Depois que o ser humano estiver reconstituído na sua inteireza ontológica, junto a Igreja e a criação, participará do juízo escatológico. A ressurreição não é um individual ou privado, mas comunitário e universal O corpo ressuscitado está destinado a participar da salvação, juntamente com a Igreja e a criação. A salvação não será um evento desmundanizado, espiritualista e nem privatizado, mas se salvará o ser humano todo, com a Igreja e a história (SCHMAUS, 1981, p. 182; RUIZ DE LA PEÑA, 2002, p. 158-165; LADARIA, 2003, p. 346-390; ALVIAR, 2007, p. 162-174; POZO, 2008, p. 351-367). O corpo humano não se reduz à sua dimensão física e biológica. O corpo é muito mais do seu componente biológico, mas trata-se de sua dimensão pessoal. A pessoa se expressa em um corpo. Através do corpo, o ser humano manifesta sua subjetividade e revela sua identidade. Trata-se também do lugar da manifestação da sexualidade e dos afetos humanos. É revelação da condição mortal, da temporalidade, da mundanidade, da sociabilidade e da historicidade do ser humano. O corpo é um nó de relações. O ser humano é um corpo no qual se constrói uma identidade, uma biografia e uma história antropológica sempre em comunhão com os outros. Ser corpo é mais do que ocupar um lugar no espaço, mas consiste numa construção de uma personalidade. O ser humano como corpo é um projeto em construção. É esse corpo como núcleo identitário e como personalidade construída que está destinado à ressurreição. O corpo da vida ressuscitada é esse reservatório de relações, de memórias e de afetos. “A ressurreição resgata e plenifica, sobretudo o que constitui essencialmente a pessoa: as relações pessoais” (SUSIN, 2018, p. 176). A ressurreição do corpo é a conservação na vida definitiva da história e da biografia do ser humano que foi sendo tecida nas malhas da condição espaço-temporal. “Ressurreição do corpo significa que todo o homem com a sua história de vida, com todas as suas relações com os outros tem um futuro e que, com a consumação final do homem, é levado a cumprimento também um fragmento do mundo” (NOCKE, 1997, p. 145). A ressurreição do corpo significa que o ser humano não encontra realização como um eu espiritual fora da história, mas que retorna a Deus com toda a sua vida, com o seu mundo e a sua história, isto é, com todos os outros (GRESHAKE, 2009, p. 95). Pela mediação do corpo, participa da ressurreição a dimensão histórica, temporal, mundana, social, pessoal e afetiva do ser humano. A ressurreição não tem como destinatário um indivíduo des-relacionado, mas um sujeito com suas relações. A ressurreição não é um fato privado e nem individualizado. Não ressuscita um indivíduo isolado, mas toda a carne, isto é, toda a criação será transformada. O sujeito da existência ressuscitada será o mesmo da existência histórica, porém ontologicamente transformação pela potência ressuscitadora de Deus. “É o mesmo corpo [da vida terrena] que será transformado e transfigurado na glória, não dois corpos, mas um mesmo sujeito corporal transformado” (SUSIN, 2018, p. 175). A ressurreição não é uma nova criação do mesmo sujeito que morreu, mas uma recriação do mesmo. A ação transformante da ressurreição “não abole a irrepetibilidade da nossa pessoa porque ela é e permanece ligada ao nosso corpo” (HORST, 1977, p. 159). A identidade da pessoa é um dado irrepetível e inconfundível. Essa identidade, que foi sendo construída histórica e evolutivamente, é o que permanece na vida ressuscitada. “Para que se conserve a identidade, Deus não necessita dos restos mortais da existência terrena de Jesus. Trata-se de uma ressurreição a uma forma de existência completamente distinta” (KÜNG, 2007, p. 115). A ressurreição não é a ressunção do mesmo corpo físico, mas do mesmo corpo pessoal, dotado de qualidades próprias do mundo dos ressuscitados. A identidade do corpo não se restringe a uma questão fisiológica, mas pessoal e existencial. Assim, há uma continuidade identitária e existencial entre o sujeito da vida terrena e da vida escatológica e uma descontinuidade em termos de duração. “Na ressurreição, o que é reassumido não é o mesmo corpo material (carne), mas sim o mesmo corpo pessoal (substancial)” (BOFF, 2012, p. 123). Com a ressurreição, se realiza o projeto de salvação que tem Deus como seu operador. A salvação contempla toda a “carne”, ou seja, toda a criação e todo ser humano serão consumados em Deus. A “carne” não é desprezada ou rejeitada, mas é uma dimensão integrante da salvação oferecida por Deus. A fé na salvação é comunicada à “carne”, ou seja, a todo mundo material e concreto (GRESHAKE, 2009, p. 92). O corpo é um elemento constitutivo do mundo material e criado que será redimido. O ser humano é “redimido com e em sua corporalidade, agora glorificada, espiritualizada: uma nova criação, um homem novo” (KÜNG, 2011, p. 189)

Ano XXXI - Nº 106 - Set - Dez 2023 151 REVISTA DE CULTURA TEOLÓGICA  - ISSN - Eletrônico 2317-4307  

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quinta-feira, 25 de dezembro de 2025

GENESIS, CAPÍTULO 1

 

 
I. As origens do mundo e da humanidade    

                           A CRIAÇÃO E A QUEDA

               No princípio, Deus criou o céu e a terra. Ora, a terra estava vazia e vaga, as trevas cobriam o abismo, e um vento de Deus pairava sobre as águas. Deus disse: "Haja luz" e houve luz. Deus viu que a luz era boa, e Deus separou a luz e as trevas. Deus chamou à luz "dia" e às trevas "noite". Houve uma tarde e uma manhã: primeiro dia.

Deus disse: "Haja um firmamento no meio das águas e que ele separe as águas das águas", e assim se fez. Deus fez o firmamento, que separou as águas que estão sob o firmamento das águas que estão acima do firmamento, e Deus chamou ao firmamento "céu". Houve uma tarde e uma manhã: segundo dia.

Deus disse: "Que as águas que estão sob o céu se reúnam numa só massa[h] e que apareça o continente" e assim se fez. Deus chamou ao continente "terra" e à massa das águas "mares", e Deus viu que isso era bom. Deus disse: "Que a terra verdeje de verdura: ervas que deem semente e árvores frutíferas que deem sobre a terra, segundo sua espécie, frutos contendo sua semente" e assim se fez. A terra produziu verdura: ervas que dão semente segundo sua espécie, árvores que dão, segundo sua espécie, frutos contendo sua semente, e Deus viu que isso era bom. Houve uma tarde e uma manhã: terceiro dia.

Deus disse: "Que haja luzeiros no firmamento do céu para separar o dia e a noite; que eles sirvam de sinais, tanto para as festas quanto para os dias e os anos; que sejam luzeiros no firmamento do céu para iluminar a terra" e assim se fez. Deus fez os dois luzeiros maiores: o grande luzeiro para governar o dia e o pequeno luzeiro para governar a noite, e as estrelas. Deus os colocou no firmamento do céu para iluminar a terra, para governarem o dia e a noite, para separarem a luz e as trevas, e Deus viu que isso era bom. Houve uma tarde e uma manhã: quarto dia.

Deus disse: "Fervilhem as águas um fervilhar de seres vivos e que as aves voem acima da terra, sob o firmamento do céu" e assim se fez. Deus criou as grandes serpentes do mar e todos os seres vivos que rastejam e que fervilham nas águas segundo sua espécie, e as aves aladas segundo sua espécie, e Deus viu que isso era bom. Deus os abençoou e disse: "Sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a água dos mares, e que as aves se multipliquem sobre a terra." Houve uma tarde e uma manhã: quinto dia.

Deus disse: "Que a terra produza seres vivos segundo sua espécie: animais domésticos, répteis e feras segundo sua espécie" e assim se fez. “Deus fez as feras segundo sua espécie, os animais domésticos segundo sua espécie” e assim se fez. Deus disse: "Façamos o homem à nossa imagem, como nossa semelhança, e que eles dominem sobre os peixes do mar, as aves do céu, os animais domésticos, todas as feras e todos os répteis que rastejam sobre a terra". Deus criou o homem à sua imagem, à imagem de Deus ele o criou, homem e mulher ele os criou. Deus os abençoou e lhes disse: "Sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra e submetei-a; dominai sobre os peixes do mar, as aves do céu e todos os animais que rastejam sobre a terra." Deus disse: “Eu vos dou todas as ervas que dão semente, que estão sobre toda a superfície da terra, e todas as árvores que dão frutos que dão semente: isso será vosso alimento. A todas as feras, a todas as aves do céu, a tudo o que rasteja sobre a terra e que é animado de vida, eu dou como alimento toda a verdura das plantas" e assim se fez.  Deus viu tudo o que tinha feito: e era muito bom. Houve uma tarde e uma manhã: sexto dia.                               O livro de Gênesis (especialmente no capítulo 1) apresenta uma ordem de criação que pode ser interpretada como uma escala ecológica (habitats sendo preenchidos) e uma forma de classificação funcional/taxionômica primitiva ("segundo a sua espécie"). Essa estrutura organiza a vida em uma sequência que vai do mais simples ao mais complexo, e do ambiente físico aos habitantes.

1. Escala Ecológica (Ordem de Habitats)

A narrativa de Gênesis 10 descreve a criação em seis dias, onde o ambiente é preparado antes dos habitantes (uma estrutura de "forma" e "preenchimento"):

Dias 1-3 (Forma/Habitats): Criação da luz/trevas, céus/águas e terra seca/vegetação.

Dias 4-6 (Preenchimento): O sol/lua preenchem os céus, peixes/aves preenchem as águas e céus, e animais terrestres/humanos preenchem a terra.

Essa ordem reflete uma "zona de vida" ou uma sequência ecológica, onde os recursos necessários para a sobrevivência de cada grupo são criados antes deles (ex: a vegetação no Dia 3 prepara o ambiente para os herbívoros do Dia 6).

2. Escala Taxionômica ("Segundo a sua Espécie")

Gênesis utiliza uma classificação funcional baseada na capacidade de reprodução e habitat, repetindo dez vezes que os seres foram criados "segundo a sua espécie" (min em hebraico).

Plantas: Divididas entre ervas que dão semente e árvores frutíferas.

Animais Marinhos e Aves: Criados conforme o habitat aquático/aéreo.

Animais Terrestres: Subdivididos em gado (domésticos), répteis/animais rastejantes e animais selvagens.

"Espécie" (Baraminologia): No contexto criacionista, esse termo refere-se a grupos básicos originais (baramin) que possuem a capacidade de variação dentro de certos limites, mas não de evoluir para outros tipos.

Exemplo: O "tipo" cão inclui lobos, raposas e cachorros domésticos, todos descendentes da mesma linhagem original.

Conclusão

Embora não seja a classificação binomial moderna de Lineu (Reino, Filo, Classe, etc.), Gênesis estabelece uma taxionomia funcional baseada na reprodução fixa e no habitat, organizada em uma sequência ecológica cronológica.

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domingo, 8 de janeiro de 2023

Concupiscências: "O Processo Químico/Fisiológico"


CONCUPISCÊNCIAS: "O PROCESSO QUÍMICO/FISIOLÓGICO" 

              “Quando desejamos algo e nos dedicamos a pensar em como receber esse algo recebemos uma tempestade de informações, e nosso organismo é estimulado a produzir hormônios a fim de direcionar a reação e o recebimento do fruto do desejo.”

Para explicar e explanar como o processo ocorre no coração humano – CENTRO DAS EMOÇÕES - será usado o texto bíblico de Genesis 3,6: 

“A mulher viu que a árvore era boa ao apetite e formosa à vista, e era uma  árvore desejável para adquirir discernimento”.                         

O PROCESSO

Quando a mulher fixa os olhos na árvore, o “neurotransmissor do desejo”, a BETA-FENILETILAMINA é liberada acelerando o fluxo de informações entre os neurônios, e esta ação faz com que o “CÓRTEX CEREBRAL” reduza a atividade da área responsável pela racionalidade e pelo julgamento crítico, ou seja, pela análise. A mulher sente uma espécie de calafrio causado pela liberação imediata de outros neurotransmissores, sendo a “DOPAMINA” a mais importante, pois é ela que estimula o CENTRO DE RECOMPENSA do cérebro. A liberação volumosa de DOPAMINA gera um “bem estar prazeroso”, e a mulher busca obter e ter a razão do desejo, no caso o fruto da árvore. Juntamente à DOPAMINA também é liberado mais alguns neurotransmissores tais como os hormônios ADRENALINA, NORADRENALINA E SEROTONINA, formando-se assim o esquadrão responsável pela “sintomatologia do desejo”, mas cada um deles tem uma função específica no processo: a DOPAMINA é responsável pelo prazer interferindo diretamente nos níveis de humor; a ADRENALINA acelera a corrente sanguínea provocando uma vasoconstrição generalizada causando a vermelhidão da pele, ou seja, o rubor; a NORADRENALINA deixa a mulher em um estado avançado de euforia e disposição; por fim a SEROTONINA provoca a obsessão que a faz “sonhar acordada” com o fruto desejado, a faz viver pelo desejo. Então, “a mulher tomou do fruto e o comeu...”!

Assim como foi com a mulher no Jardim do Éden, também o é na atualidade com todo ser humano sempre que somos provados pelos nossos desejos exacerbados; “somos atraídos e engodados pelas nossas próprias concupiscências, e elas ao serem concebidas dão à luz o pecado, e o pecado atingindo o termo gera a morte”.

Lembremos de que as concupiscências não vêm do Pai, mas do mundo, e o mundo passa, é temporal e temporário como os nossos desejas exacerbados, porém os que fazem a vontade de Deus permanecem ETERNAMENTE.

Fabio S de Faria. 

Goiânia 08/01/23

OBS:  Este post é o segundo da trilogia sobre funcionamento do CORAÇÃO conforme o relato da BÍBLIA. 

Leia o primeiro em:

 https://cristaodebereia.blogspot.com/2022/04/o-coracao-na-biblia-uma-angiografia.html


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terça-feira, 5 de abril de 2022

O Coração Na Bíblia: “Uma Angiografia.”

O Coração Na Bíblia: “Uma Angiografia.”

 (Angiografia: “exame radiológico das artérias coronárias, minimamente invasivo”)

... E IAHWEH DISSE CONSIGO: “eu não amaldiçoarei nunca mais a terra por causa do homem, porque os desígnios do homem são MAUS desde a sua infância...” Gênesis 8.21.

Os hebreus, tendo como base o texto de Levíticos 17 entendiam que o “coração” era a própria vida das pessoas e assim os escritores bíblicos o empregaram pelo todo, pelo indivíduo, o considerando a sede da vida intelectual e emotiva, como o símbolo do amor e de todas as emoções. E, é dessa forma que até os dias atuais, poetas, compositores, amantes, e o povo em geral o considera.

Na Bíblia, o “coração” é citado mais de mil vezes, porém raras vezes no sentido fisiológico como em 2ºSamuel 18:14. A maioria das citações afirma ser ele a sede das faculdades e da personalidade, é nele que nascem os pensamentos, sentimentos, palavras, decisões e ações, e só Deus o conhece profundamente, quaisquer que sejam as aparências [ex:1ºSamuel 16:17].                                  O “coração” é o centro da consciência religiosa e da vida moral, é nele e por ele que o homem procura a Deus, que o ouve, o serve, o louva e o ama. O “coração” simples, reto, puro, é aquele que não está dividido por nenhuma reserva ou segunda intenção e por nenhuma falsa aparência em relação a Deus ou aos homens. 

Em Gênesis 8:21, o próprio Deus diz que os desígnios do “coração” são maus desde a sua infância; o profeta Jeremias inspirado por Deus diz que o pecado dos judeus – consequentemente o nosso também – está escrito com estilete de ferro, gravado com ponta de diamante na tabuinha e nos altares do “coração”. O Senhor Jesus Cristo afirmou que as impurezas não estão nas coisas ingeridas pela boca, mas pelas palavras que dela sai procedente do ”coração”, - a boca fala aquilo que do qual o “coração” está saturado – ou seja, é no “coração” que reside as más intenções, assassínios, adultérios, prostituições, roubos, falsidades e difamações (Mt 15:15 a 20). Deus ordenou ao profeta e sacerdote Ezequiel que dissesse aos judeus exilados na Babilônia: eu os purificarei de todas as imundícies, tirarei dos seus peitos o “coração” de pedra e no lugar colocarei um “coração” de carne; essa promessa também nos foi feita pelo Senhor Jesus Cristo mediante o seu sangue, o sangue da Nova Aliança, ou seja, ao verter na cruz o seu sangue, Ele purificou nosso “coração” e substituiu a pedra por carne.
           Em oposição à visão dos escritores bíblicos, dos poetas, dos compositores, dos amantes em geral, sabe-se que o “coração” é simplesmente o órgão responsável por bombear o sangue levando-o a todas as partes do corpo, um órgão desprovido de qualquer tipo de sentimento ou de emoção.                                                                                            Este saber culmina na pergunta:
 ENTÃO, QUAL É O ÓRGÃO DO CORPO HUMANO QUE TEM A FUNÇÃO DO “CORAÇÃO” APREGOADO NA BÍBLIA?
A resposta exata é que o “coração bíblico” é em realidade um conjunto de estruturas localizado no cérebro, composto por:
1 - córtex cerebral, responsável pelas funções cognitivas e pelo processamento de informação de nível mais elevado cujas funções incluem pensamento e raciocínio, memória, consciência, atenção, consciência perceptiva e linguagem, se constituindo, portanto, na sede do intelecto e da razão. "O consciente."
2 - sistema límbico, o responsável pelo controle do comportamento emocional do sistema nervoso e está envolvido diretamente com a natureza afetiva das percepções sensoriais, também conhecido por cérebro emocional, ou seja, a sede das emoções. "O subconsciente".
A esse conjunto nós chamamos MENTE,[1] [2] [3] (o estado da consciência ou subconsciência que possibilita a expressão da natureza humana, também sendo um conceito bastante utilizado para descrever as funções superiores do cérebro humano relacionadas à cognição e ao comportamento, particularmente aquelas funções que tornam os seres humanos conscientes, tais como a interpretação, os desejos, o temperamento, a imaginação, a linguagem, e sentidos, embora estejam vinculadas às qualidades mais inconscientes como o pensamento, a razão, a memória, a intuição, a inteligência, o arquétipo, o sonho, o sentimento, ego e superego), porém é preciso entender que o cérebro e a mente não são entidades separadas mas que a mente é a atividade do cérebro, [4] ou seja, o cérebro é a parte física e a mente, a abstrata. 

A maioria das citações sobre o “coração” na Bíblia está basicamente relacionada à parte física, à parte que gera as emoções, que controla os desejos e os pensamentos. Hoje se sabe que esta parte é o “sistema límbico”.

O SL é quem responde pelos comportamentos instintivos, pelas emoções profundamente arraigadas, pelos impulsos básicos como sexo, ira, prazer e sobrevivência. É a parte do cérebro que regula as respostas fisiológicas e emocionais do corpo. Suas estruturas anatômicas são as responsáveis por processar as emoções, regular a conduta do ser humano. É assim que ele funciona como "coração", ou seja, o centro das emoções e dos desejos. É ele que regula o  Sistema Nervoso Autônomo, - o responsável pela coordenação do funcionamento de todos os órgãos internos. 

É importante destacar que sua descoberta - anatomia - se deu há menos de duzentos anos, mas somente a partir de 1952 - há setenta anos - é que o cientista Paul McLean definiu as estruturas neuronais implicadas na formação deste sistema que hoje conhecemos como Sistema Límbico, e foi este cientista quem também afirmou pela primeira vez ser este, o sistema emocional mais avançado de todos.[5].

        Apesar de todo o avanço da ciência pode-se afirmar que o SL ainda é um ilustre desconhecido. Não há como sondá-lo em sua profundidade. Por meio de medicamentos é possível acalmar suas atividades, mas não se consegue dominá-lo por completo. Pode-se até extirpá-lo, mas é impossível domá-lo pela força humana. Por ser afetado pelas experiências afetivas e emocionais do ser humano em seu contexto social, é o SL quem dita e direciona o comportamento e a reação das pessoas em todos os níveis, pois é dele que surge os pensamentos bons e ruins, é nele  que reside o egoísmo, o medo, a ira, a ansiedade, etc.              Assim como afirmado pela Bíblia, ele é enganoso e enganador, falso e incorrigível, ou seja, ninguém pode conhecê-lo a não ser Iahweh, o nosso Deus. Só a graça de Deus é capaz de mudar o seu intento, só ela é capaz de transformá-lo e curá-lo, pois só ela é capaz de dar ao homem uma nova natureza - um novo nascimento -, só ela pode dar ao homem um novo "coração", ou seja, uma nova forma de entendimento. Só a graça de Deus na pessoa do nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo é que pode nos libertar de toda esta escravidão, pois só Ele é a verdadeira espada de dois gumes, a que penetra no mais profundo do nosso ser até dividir alma e espírito, juntas e medulas, a espada que julga as disposições e as intenções produzidas e armazenadas em nosso "coração", o SL. 

      Concluo a angiografia do "coração bíblico", este pequeno estudo, esta simples reflexão, trazendo à lembrança a citação do teólogo e filósofo francês, Blaise Pascal:                                                                                  O coração tem razões que a própria razão desconhece.


Fabio S. de Faria.

GOIÂNIA, abril de 2022.




[1]  https://conceito.de/mente

[2] https://www.cognifit.com/br/mente#:

[3] https://pt.wikipedia.org/wiki/Mente

[4] Gabbard G.O. Mente, cérebro, e transtornos de personalidade, American Journal of Psychiatry 2005; 162:648-655

[5]  https://www.todamateria.com.br › sistema-limbico





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quinta-feira, 6 de janeiro de 2022

O PECADO ORIGINAL


O PECADO ORIGINAL

OS FATOS: 

1º “quando ouviram a voz do Senhor Deus, que andava no jardim pela viração do dia, esconderam-se da presença do Senhor Deus, o homem e sua mulher, por entre as arvores do jardim. O Senhor Deus ao homem chamou e lhe perguntou: onde estás? O homem respondeu: ouvi a tua voz no jardim, e por estar nu, tive medo, e me escondi. Gn 3.8 a 10”. 

2º “Agradou-se o Senhor de Abel e de sua oferta; ao passo que de Caim e de sua oferta não se agradou. Irou-se, pois, extraordinariamente Caim e lhe descaiu o semblante. Gn 4.4 e 5.”

 3º “Dei-te a casa de teu amo Saul e as mulheres de teu amo Saul em teus braços, e também te dei a casa de Judá e de Israel; se isto fora pouco, eu teria acrescentado tais e tais coisas. Por que, pois, desprezaste a palavra do Senhor, fazendo o que era mal perante ele? A Urias o heteu, feriste à espada, e a sua mulher tomaste por mulher, após o matar com a espada dos filhos de Amon. 1ºSm 12.8 e 9 ”.  

4º “Mas Jesus lhe disse: afirmo-te Pedro, que hoje, três vezes negarás que me conheces, antes que o galo cante. Lucas 22. 34”. 

5º “Jesus, porém, lhe disse: Judas, com um beijo trais o Filho do Homem? Lucas 22.48”.

6º “Em 20 de julho de 1944, o ditador nazista HITLER, escapou por pouco de morrer quando uma bomba-relógio, colocada em seu quartel-general, por um oficial alemão, explodiu. Os inimigos de Hitler na Alemanha faziam   planos de derruba-lo ou mata-lo desde 1938, mas todas as tentativas não lograram sucesso. Para se vingar da bomba-relógio que quase o matara, Hitler mandou executar pelo menos 4980 pessoas. Em obediência a ordem sua, algumas dessas pessoas foram estranguladas lentamente com cordas de piano, e a agonia delas foi registrado em filmes que o ditador  assistiu depois.(pág. 4031, enciclopédia Delta Universal)”.

7º “Estrangulou filhotes de cães para atingir mulher”; “Cadáver encontrado com tiros e facadas”; “Dupla mata homem em hotel”; “Rapaz  é executado dentro de sua casa”; (manchetes de jornais e telejornais de Goiânia em 23-07-10).

Ao ler os fatos descritos, e refletir sobre: “o medo de Adão; a raiva de Caim; a perversão sexual de Davi; a traição de Judas; a negação de Pedro; a fina maldade de Hitler; a banalização da vida na atualidade”, conclui-se que todas essas manifestações, são originarias de uma única fonte, e são partes integrantes de um mesmo sistema. Ao refletir, sobre o motivo que gerou a explosão de cada uma destas manifestações, percebe-se que o estopim da bomba, sempre é aceso pela ação destrutiva do EGOISMO [excessivo amor ao bem próprio, sem atender ao dos outros] assim como, pelo domínio ambicioso do EGOCENTRISMO [propensão inata para referir tudo a si próprio, considerando-se sempre a figura central] que são características inerentes ao ser humano. A essa inerência, a Bíblia outorga um nome: PECADO. 

                                          SIGNIFICADOS  

PECADO: s.m = Transgressão de preceito religioso (por ext) culpa, vicio  maldade. (dicionário da língua portuguesa).

Transgressão livre e deliberada da lei de Deus; todo desvio decidido por si mesmo, embora de leve, de Deus; nosso ultimo fim para aderir a algum bem finito, contrario a lei de Deus. O âmago do pecado é a rebelião contra Deus; e será pecaminoso todo o ato em que a vontade humana se opuser à vontade divina como tal conhecida pela consciência. (dicionário  da Bíblia Sagrada; enciclopédia  Barsa –  Monsenhor J.Alberto L. de Castro Pinto).

PECADO NO HEBRAICO « é definido pelo uso de três palavras básicas: HATA’= pecar, errar o alvo; PESA’= rebelar-se, transgredir; e AWON’= iniquidade, culpa. Cada uma dessas palavras implica um absoluto padrão divino, e define o pecado em relação a esse padrão. Podemos errar o alvo por causa de nossas fragilidades, podemos nos rebelar contra o padrão de Deus, ou podemos deturpá-lo em uma tentativa de evitar o conhecimento do pecado. No entendimento de Lawrence O. Richards (escritor, filosofo, mestre em Educação Cristã, e doutor em Psicologia Social e Religiosa), o SALMO 51, desenvolve a mais completa e simples declaração de uma real “teologia do pecado”, ao identificar a natureza da falha humana através dos termos usados (versos 1 e 2... e, segundo a multidão das misericórdias apaga as minhas TRANSGRESSÕES, lava-me completamente da minha INIQÜIDADE, purifica-me do meu PECADO); ao afirmar que o pecado é contra Deus, que institui o padrão (verso 3.... pois eu conheço as minhas TRANSGRESSÕES, e o meu PECADO, está sempre diante de mim); e ao apresentar a idéia de que a semente do pecado está enraizada na natureza humana decaída, de maneira que não só executamos atos pecaminosos, mas nós mesmos somos pecadores por natureza (verso 5 ..... eu nasci em INIQÜIDADE, e em PECADO  me concebeu minha mãe). Refletindo um pouco mais nessa “teologia do pecado”, pode-se também entender através do verso 5, que a  “doutrina bíblica de depravação” é frequentemente mal interpretada. Davi diz “eu nasci em iniquidade (‘awon), e em pecado (hata’) me concebeu minha mãe”. A afirmativa mostra que a verdadeira natureza de Davi foi desviada da forma planejada por Deus, de maneira que ele não atingiu o objetivo do designo de Deus para a humanidade. È essa falha na natureza humana, que Romanos 5.12-21 (o fundamento real desse estudo) traça para a queda de Adão; a falha que faz com que homens e mulheres, sejam pecadores e que gera o ato de pecar. Afirmar que a humanidade é depravada significa que o pecado tem um constante domínio sobre o ser humano, e que todas as pessoas praticam atos de pecado.

Também não se deve olvidar que a historia do pecado de Davi com Bate-Seba, encontrada em 2º Samuel 11, relata que ele viveu com o pecado encoberto, fechado no seu interior por um ano, desde a concepção de Bate-Seba (verso 4), até o nascimento da criança (verso 27). A confissão de Davi sobre a ocultação e interiorização desse pecado, é relatada no Salmo 32. (Ler com muito zelo)

    O PECADO NA VISÃO DA IGREJA CATOLICA ROMANA

O catolicismo romano considera que o pecado é constituído de dois tipos distintos: “o pecado original e os pecados atuais”, sendo que os atuais são divididos, conforme a gravidade da transgressão, e conforme o grau de voluntariedade e deliberação: “pecados mortais e pecados veniais”. Outra classificação divide os pecados atuais em “formais”, (todas as transgressões deliberadas) e “materiais” (transgressões onde não haja consentimento ou conhecimento). Os pecados materiais, não são propriamente considerados pecados, porque a transgressão não é voluntária. De acordo com a visão teológica do catolicismo romano, a Igreja tem o poder de fazer com que a alma, volte à amizade de Deus, e ela assim o faz através do sacramento da “Penitencia ou Confissão”. Esse poder foi recebido quando Jesus Cristo disse: “recebei o Espírito Santo. Os pecados a quem perdoardes serão perdoados, e os pecados a quem retiverdes, serão retidos. (João, 20.23).” ««« comentários exegéticos e hermenêuticos ao final desta secção »»».

PECADO ORIGINAL: esta expressão designa duas coisas diversas, porém relacionadas entre si:

 I- o pecado de Adão, ao desobedecer a Deus;

 II- as consequências dessa desobediência,

 As consequências se constituíram na perda para si e para todos seus descendentes, da graça santificante e bens sobrenaturais, que lhe fora dado por Deus, tais como o direito ao céu, a imortalidade e a imunidade contra o sofrimento, o paraíso terrestre, o dom da integridade, « o perfeito controle das paixões pela razão cuja perda prejudicou os dons naturais no sentido de que, só através de luta e esforço, poderá o homem alcançar a perfeição de qualquer um deles » assim, pois, Tomas de Aquino aponta a luta pela verdade para suplantar a ignorância, a luta pelo árduo para suplantar a fraqueza, a luta pelo uso moderado, daquilo que é altamente agradável para suplantar a concupiscência.

[o livro da Sabedoria 10:1 e 2 nos informa que, mais tarde, Adão obteve o perdão de sua grande falta, “a sabedoria guardou aquele, que foi por Deus formado primeiro pai da redondeza da terra, tendo sido criado só, e o tirou do seu pecado e lhe deu virtude de governar todas as coisas”].

Uma vez que Adão foi não somente o primeiro homem, mas também o “chefe ou cabeça” do gênero humano, seu pecado (não o de Eva) causou serias consequências a todos os seus descendentes, que ficaram privados dos mencionados dons que teriam se Adão não tivesse pecado. Esta privação da graça santificante e dos outros dons é o que se denomina pecado original em todos os homens (Rm 5.19). Nisto não há injustiça alguma, já que não tínhamos direito a esses dons.  O pecado de Adão, não nos fez perder nada que, como seres humanos, tivéssemos direito. Pelo sacramento do Batismo, Deus nos restitui o mais precioso dos dons gratuitos outorgados outrora a nossos primeiros pais, que é a graça santificante. Entretanto, as outras consequências tais como a morte corporal, doenças, fraqueza da inteligência e da vontade etc permanecem.

[Apenas uma pessoa, Maria, mãe de Jesus, não chegou a ser privada da graça santificante devido ao extraordinário privilegio de uma redenção preservativa, em vista dos méritos futuros de seu filho, Jesus. Esse singular privilegio de Maria é conhecido como “A IMACULADA CONCEIÇÃO DE MARIA”, tendo sido majestosamente instituído como “dogma de fé” em 08 de dezembro de 1854, pelo papa Pio IX. [Imaculada Conceição, é o peculiar privilegio pelo qual a Virgem Maria, em vista dos méritos futuros de seu “Divino Filho Jesus Cristo, foi concebida livre do pecado no seio de sua mãe Santa Ana, ou seja, no primeiro instante de sua concepção, foi preservada de toda mancha do pecado original]”.

PECADO ATUAL-Todos os atos ou omissões que são contrários à Lei de Deus. São pessoais e voluntários, sendo assim chamados em contraposição ao pecado original.

PECADOS CAPITAIS - São as sete principais fontes de atos pecaminosos:   ORGULHO;   AVAREZA;   LUXURIA;   INVEJA;   IRA;   PREGUIÇA;   GULA.   È importante notar que essas fontes não são primitivamente o “pecado”, mas sim tendências da natureza para os atos descritos. Recebem o nome de “capitais”, porque são as fontes ou as raízes de outros pecados. A visão da “Igreja Romana” é de que a vida cristã é uma continua luta contra estas sete tendências ou inclinações para atos pecaminosos.

 PECADOS QUE CLAMAM AOS CÉUS POR VINGANÇA- O homicídio voluntário, o pecado de Sodoma, a opressão do pobre, a defraudação dos operários no seu salário. Em virtude de sua má fé ou dolo, (são pecados cometidos contra a sociedade) parecem pedir castigo por um ato especial da Justiça Divina. O nome especial dado a esse tipo de pecado, se deve ao  motivo das Escrituras Sagradas, assim se referirem a eles. Gênesis 4.10 “e disse Deus: Que fizeste? A voz do sangue de teu irmão clama da terra a mim”. Êxodo 22. 22 e 23: “A nenhuma viúva nem órfão afligireis, pois se de algum modo os afligirdes, e eles clamarem a mim, eu irei lhes ouvir o clamor.” Deuteronômio 24.14 e 15: “Não oprimirás o jornaleiro pobre e necessitado, seja ele teu irmão ou estrangeiro que está na tua terra e na tua cidade. No seu dia, lhes dará o seu salário, antes que o sol se ponha, porquanto é pobre, e disso depende a sua vida; para que não clame contra ti ao Senhor, e haja em ti pecado.”

PECADOS CONTRA O ESPIRITO SANTO: Conforme o relato bíblico em Mateus 12. 22 a 32, alguém trouxe a Jesus um endemoninhado, cego e mudo. Jesus expulsou o demônio, e aquele homem passou a ver e a falar.  Enquanto a multidão se admirava, os fariseus murmuravam, acusando a Jesus de expelir os  demônios senão pelo poder de Belzebu, o maioral dos demônios.

 Jesus, porém conhecendo seus pensamentos, lhes contou uma parábola, afirmando ao final: “se alguém proferir alguma palavra contra o Filho do Homem ser-lhe-á isso perdoado; mas se alguém falar contra o ESPIRITO SANTO, não lhe será isso perdoado, nem neste mundo nem no porvir.” Em Marcos 3.29, lê-se: “mas aquele que blasfemar contra o ESPIRITO SANTO jamais terá perdão, pois será réu de eterno pecado.”

 Este pecado, cognominado como “o pecado dos fariseus,” se diz contra o ESPIRITO SANTO, porque vai contra a bondade e o poder milagroso de Deus. Cristo expulsava os demônios pelo poder divino, então os fariseus ao atribuírem esse ato ao poder de Belzebu, simplesmente colocavam em duvida o poder de Deus. Consoante a esse, há outros seis pecados citados pelos “teólogos medievais” e, que de forma especial, podem também ser considerados contra o ESPIRITO SANTO.

São eles: 

1- desesperar-se da própria salvação; 2- acreditar presunçosamente na misericórdia de Deus; 3- atacar as verdades aceitas pela Igreja; 4- invejar o bem espiritual dos outros; 5- permanecer obstinadamente em estado de pecado mortal; 6- a impenitência final (falta de arrependimento). Embora sejam diferentes do pecado que Jesus descreveu como sendo contra o ESPIRITO SANTO, estes seis também recebem a mesma cognominação porque endurecem o pecador contra o auxilio do ESPIRITO SANTO, o que torna mais difícil a possibilidade do arrependimento.

PECADO MORTAL: Transgressão da lei de Deus em matéria grave com advertência e consentimento, ou seja: “voluntariamente”. Para que haja um pecado mortal, três condições são requeridas:

A - que a ação seja em “matéria grave” ou como tal considerada pelo pecador, como assassinato, furto, blasfêmia;

 B - deve haver “plena advertência” de que a atitude a ser realizada é falta grave.

 C- deve haver “pleno consentimento” da vontade, escolhendo-se livremente o perfazer a atitude má. Esses pecados são chamados mortais, porque matam a vida sobrenatural da alma, tirando-lhe a graça santificante. Todo o que perecer, em estado de pecado mortal não terá condições de ir para o céu, e será condenado ao inferno eternamente.

PECADO VENIAL: desobediência em matéria leve ou por não ter havido pleno consentimento. O pecado venial, embora prepare o caminho para o pecado mortal e seja o maior mal depois deste, ainda não destrói de forma completa a amizade da alma com Deus. É uma enfermidade da alma, mas ainda não significa morte, pois a graça santificante permanece na alma.

«« Dicionário Prático por Mons. José Alberto L. de Castro Pinto – Bíblia Sagrada, Edição Barsa  1968; Rio de Janeiro. »»

OBS: 1- A respeito da interpretação feita pela Igreja Católica Apostólica Romana de João 20. 23, antes de aceitar ou condenar, é importante que se faça uma reflexão cuidadosa sobre as palavras e a intenção de Jesus ao proferi-las. A tradução literal do texto grego diz: “aqueles cujos pecados vocês perdoarem, já terão sido perdoados; aqueles cujos pecados vocês não perdoarem, não terão sido perdoados”. É no evangelho que todos nós proclamamos o perdão. Ao compartilharmos o evangelho colocamo-nos no papel de perdoar os pecados, dependendo da sensibilidade do ouvinte. Jesus deu aos seus discípulos, que são pessoas conduzidas pelo Espírito Santo (v. 22), a autoridade para declarar aquilo que Deus já fez quando alguém confia em Cristo. Quando vocês perdoam os pecados de alguém, ele parece estar dizendo, essa pessoa já foi perdoada, entretanto, quando vocês dizem que ela não é perdoada (por não confiar em Cristo), ela não foi perdoada. Todos os cristãos, portanto, possuem esse mesmo poder de pronunciar perdão de pecados, pois são testemunhas das boas novas de Cristo por todo o mundo. Nessa passagem não há qualquer menção de que essa declaração de perdão fosse apenas obra dos apóstolos, e que iria ser primazia de um grupo sacerdotal, ou de algum determinado  grupo de clérigos. (Manual Popular de duvidas, enigmas e “contradições” da Bíblia: Norman Geisler e Thomas Howe, pág 432, ed. Mundo Cristão).

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sexta-feira, 19 de novembro de 2021

"A IGREJA ATUAL X O MITO DA CAVERNA".

                         Partindo do pressuposto de que a filosofia é uma forma de interpretar a realidade, interagindo e considerando temas sociais, políticos, culturais e religiosos, nos é possível entender que ela propicia o desenvolvimento do senso crítico, o afastamento da mente da mediocridade, nos levando a refletir sobre qual é o melhor caminho para compartilhar as descobertas, repassar o bem, auxiliando e ensinando ao próximo em sua evolução.

             No momento atual, em que boa parte dos cristãos se encontram envolvidos na idolatria e na prática dos "fake news", neste momento de arrefecimento de uma cruel pandemia, refletir e fazer uma analogia sobre a obra de Platão – O MITO DA CAVERNA – e interpretá-la sociologicamente em alinhamento à realidade da Igreja brasileira é algo de importância ímpar.

[Na alegoria da caverna, Platão descreve a seguinte situação: “Em uma caverna  escura existe um grupo de prisioneiros que desde a infância  se encontram acorrentados a uma parede e a única coisa que conseguem ver é a parede paralela à sua frente. Nessa parede, sombras formadas por uma fogueira num fosso anterior aos prisioneiros são projetadas. Pessoas passam com estatuetas e fazem gestos na fogueira para projetar as sombras na parede frontal aos prisioneiros, e esses acham que toda a realidade são aquelas sombras, pois o seu restrito mundo resume-se a estas experiências. Um dia, um dos prisioneiros é liberto e começa a explorar o interior da caverna, descobrindo que as sombras que ele sempre via eram, na verdade, controladas por pessoas atrás da fogueira. O homem livre sai da caverna e encontra uma realidade muito mais ampla e complexa do que a que ele jugava haver quando ainda estava preso. No início, o homem sente um incômodo muito forte com a luz solar, elemento que as suas retinas não estavam habituadas e que o cega momentaneamente. Após algum tempo de visão ofuscada, o homem consegue enxergar e percebe que a realidade e a totalidade do mundo não se parecem com nada do que ele tinha conhecido até então. Tomado por um dilema, de retornar para a caverna e correr o risco de ser julgado como louco por seus companheiros ou desbravar o novo mundo, o homem aprende que o que ele julgava conhecer antes era fruto enganoso de seus sentidos, que são limitados.]

Tanto no mito da caverna, quanto na vida cristã, o ponto central a ser focado é a luz, pois ela é que leva ao discernimento de todas as coisas. Se no escrito de Platão a luz é o bem ansiado, na Igreja a luz é Jesus. E em ambas as sombras representam o mal e a ignorância. Portanto, sair da caverna é sair de um estado de ilusão para o conhecimento de algo real.

Quando se olha atentamente para a Igreja atual é possível ver que a maior parte de seus membros fizeram do mundo com seu sistema uma grande caverna. Uma caverna que os mantém prisioneiros vivendo pela ideia do ter, os levando a lutar por coisas instáveis, passageiras e não prioritárias. Uma caverna em que as sombras e os ecos representam as opiniões e os preconceitos que trazem da vida cotidiana, ou seja, conhecimentos errados que são adquiridos no dia a dia por meio dos sentidos, apenas projeções distorcidas da imagem real, levando-os ao falso entendimento de que continuar na caverna exige menos esforço do que sair da zona de conforto e enfrentar a realidade e lidar com suas consequências. 

Sair da caverna, estar em contato com a luz traz aos olhos uma dor insuportável, por isso aceitar a própria ignorância, os erros, as ilusões, é algo bem menos doloroso do que tentar olhar de frente para a luz. Amar o mundo, amar o que ele nos oferece no aqui e agora é algo bem mais desejável e apetecível do que entender, se convencer e viver pela fé na promessa da vida eterna. Viver alimentados pela pregação de falsas promessas, andar sob a luz projetada pelos falsos "deuses terrenos', se comportar conforme o padrão estabelecido, conforme certas ideologias criadas por pessoas irrelevantes e sem embasamento divino é algo bem mais confortável do que seguir os princípios ensinados por Jesus. Por isso, amar o próximo, mostrar Jesus aos mortos em delitos e pecados, ser tolerante com os fracos e desvalidos, buscar justiça para os oprimidos, vestir o nu e alimentar o faminto são paradigmas dos quais grande parte da Igreja de Cristo na atualidade, prefere ficar distante e se manter indiferente. A cada dia constata-se que para estes cristãos aredes sociais tornaram-se vitrines cheias de imagens que demonstram felicidade e perfeição invejáveis, mas revelam egos vazios de sentido. Há uma vulgarização da vida humana, pois a escolha é manter-se na caverna tornando-se seres cada vez mais desprezíveis, manipuláveis, fracos e dominados.

                Diante desta situação, a esperança está nos 144000 que não dobraram o joelho a baal, aqueles que saíram da caverna, que foram iluminados pela luz do Senhor e Salvador Jesus Cristo, e se tornaram aptos a resgatar muitos dos "zumbis cavernísticos". 

Fabio S. de Faria.


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domingo, 21 de fevereiro de 2021

Os Habitantes do Reino do Meu "EU"

                             Eu disse a Deus: “Senhor tenho buscado seguir os ensinos de Jesus, tenho buscado um conhecimento melhor da Bíblia, tenho buscado ajudar as pessoas, mas as dificuldades, os contratempos não diminuem, a colheita tem sido escassa e improdutiva, não consigo entender o porquê, a razão para tanta angústia”.

                              A resposta veio de forma dura, chocante e categórica: “você foi bastante impertinente em sua indagação, nem merece resposta, porém pela minha imensa misericórdia lhe proporcionarei a visão das construções e dos habitantes do seu reino interior, assim como lhe darei a chance de um arrependimento sincero e verdadeiro”.

                   De imediato, diante de meus olhos, uma porta se abriu colocando à mostra tudo quanto existe no reino do meu “eu", e o Sr Discernimento já estava à espera, preparado para me guiar pelos tortuosos caminhos do reino. 

A primeira construção com a qual me deparei foi a de um grande palácio em cuja sala principal há vários tronos. O trono central está ocupado pela rainha Vaidade, do lado direito o trono de seu marido, o Egoísmo, e do lado esquerdo mais quatro tronos nos quais estão assentadas as princesas: Soberba, Arrogância, Prepotência e Impiedade. Em frente aos tronos há duas grandes cadeiras, e nelas se assentam os dois principais súditos de sua Majestade: o duque Orgulho Próprio e sua esposa Justiça Própria. 

                      Olhei para o Discernimento e ele me informou que estávamos no palácio “Velha Natureza”, e que na atualidade as pessoas ali presentes são as responsáveis pelo governo do reino, e detêm praticamente o domínio sobre tudo que há nele. 

               Olhando por uma das janelas da sala avistei uma pequena construção inacabada; a sua volta vi um jardim mal cuidado e algumas árvores frutíferas sem folhas, sem flores e sem frutos. Rapidamente saí do palácio, fui até a construção inacabada, e então pude ver em seu interior algumas pessoas tristonhas aparentando estarem famintas e desnutridas. Virei-me para o Discernimento e ele com calma informou: “esta construção inacabada é o palácio Nova Natureza, e estas pessoas são aquelas que você recebeu a incumbência de alimentar, mas não o fez. Em realidade estas são as pessoas que deveriam e devem governar este reino. 

       Quando Deus disse que daria a você a chance de um arrependimento sincero e verdadeiro, Ele simplesmente lhe outorgou a missão de reconduzir estas pessoas ao lugar que devem estar. Eis que lhe apresento a Humildade, o seu marido Amor ao Próximo, suas filhas Caridade, Benignidade, Bondade e Generosidade. Só você pode fornecer-lhes os meios e os víveres necessários para que a construção do palácio seja concretizada, e elas possam assumir o comando do reino. Se você assim o fizer, elas irão libertá-lo da escravidão que lhe foi imposta pelos habitantes da “Velha Natureza”.

         Assim como veio, a visão se foi, porém uma grande faixa ficou fixada em minha mente, e nela está escrito: 

               "A RESPOSTA FOI DADA. COLOQUE EM AÇÃO O QUE LHE FOI DITO PELO DISCERNIMENTO. ALIMENTE OS HABITANTES DA NOVA NATUREZA E ELES O ALIMENTARÃO".

Fabio S Faria




 

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