REFLEXÕES TEOLÓGICAS SOBRE O CORPO NO ANTIGO
TESTAMENTO
A
língua hebraica não possui um termo que possa designar, propriamente, o corpo
humano. O termo basar está relacionado com a condição efêmera e pode ser
traduzido por carne, corpo, parentesco e fragilidade. No Novo Testamento, nos
escritos paulinos, o corpo conquista uma relevância antropológica e teológica. UM
DOS SIGNIFICADOS DO TERMO “CORPO” DIZ RESPEITO À EXISTÊNCIA CONCRETA DO SER
HUMANO. Na visão paulina, a condição contingente, corporal e existencial do ser
humano é expressa com dois termos gregos: sarx e soma. O vocábulo sarx, cujo
correspondente é o hebraico basar, significa, em geral, a condição carnal comum
aos homens e animais. Paulo o restringe à condição carnal humana. Sarx não se
refere a uma parte, mas ao ser humano na sua totalidade visível, física e
externa. Trata-se da condição débil, frágil, desejante, mundana, solidária e
mortal do ser humano. É o ser humano exposto ao pecado e à corrupção. A
dimensão sarx designa a solidariedade do ser humano com a criação e o seu
distanciamento de Deus (BULTMANN, 2004, p. 291-298; ROBINSON, 1968, p. 25-36;
RUIZ DE LA PEÑA, 1988, p. 72-74). O vocábulo sarx tem uma correspondência com
soma (corpo), que por sua vez designa o ser humano todo. O termo soma designa a
dimensão externa, física, mundana, solidária, relacional e sexual do ser
humano. Soma não é algo que o ser humano tem, mas o que ele é. O termo uma
proximidade com o conceito de personalidade. O ser humano todo é uma realidade
somática. Soma é Ano XXXI - Nº 106 - Set - Dez 2023 149 REVISTA DE CULTURA
TEOLÓGICA ISSN - Eletrônico 2317-4307 http://revistas.pucsp.br/culturateo o ser
humano solidário com a criação e orientado para Deus. Paulo fala de
ressurreição do corpo e não carne (BULTMANN, 2004, p. 247-259; ROBINSON, 1968,
p. 36-44; RUIZ DE LA PEÑA, 1988, p. 74-77). A frontalidade bíblica e os
primeiros séculos do cristianismo, até por volta dos inícios do século III, o
corpo era valorizado e visto de forma positiva. O corpo era visto como sede da
imagem de Deus, a realidade assumida por Cristo na encarnação e que estava
destinado a participar da ressurreição no último dia. Foi a partir da escola de
Alexandria (séc. III) que o corpo começou a ser tratado de forma marginal na antropologia
e na teologia. A revalorização teológica do corpo começou na segunda metade do
século XX, no contexto da consideração teológica de temas antropológicos
(morte, liberdade, pessoa, etc.), escatológicos (ressurreição da carne, a
participação do corpo na vida pós-mortal, a dimensão escatológica do presente e
da atividade humana, etc.) e cristológicos (encarnação, a relação entre
cristologia e antropologia, etc.). O corpo passou a ser considerado como um
verdadeiro objeto de reflexão teológica. Assim, começou a surgir uma produção
reflexiva e bibliográfica sobre o corpo. Nesse contexto de uma recuperação
teológica e do surgimento de produção bibliográfica em torno do corpo, pode
dizer que o corpo “não é mais um túmulo, mas aquilo que ressurge do túmulo, o
que não se encontra seu lugar no túmulo” (GESCHÉ, 2009, p. 67). O corpo é
talvez o lugar teológico por excelência tanto do ser humano como de Deus. Pelo
corpo, o ser humano vai ao encontro de Deus e Deus vem ao seu encontro.
“Antropologicamente, se posso chegar verdadeira e realmente até Deus só
mediante meu corpo, ou seja, por meio do meu estar-no-mundo em todas as suas
dimensões, também Deus só pode vir até mim, nascer em mim, encarnando-se,
inserindo-se em meu corpo de desejo, formando corpo comigo, isto é,
correspondendo efetivamente a minhas aspirações [...]; do contrário ele
permanecerá heterogêneo a mim e sem acesso a minha vida concreta atual, ele
tornar-se-á uma abstração literalmente insignificante” (FAMERÉE, 2009, p. 26).
O corpo é o lugar do encontro com Deus, com o outro, com a criação e com o
próprio ser humano. O corpo não é um oponente ou inimigo de Deus, mas o
princípio antropológico mediador do encontro com ele. O corpo é templo do
Espírito Santo (1Cor 3,16; 6,19). O ser humano é um santuário ambulante, uma
igreja a céu aberto. O corpo é um território sagrado e um espaço de
manifestação de Deus. “Habitando na corporeidade humana, o Espírito Santo faz
do ser humano seu templo, sua morada. O cristianismo traz [...] o fato de que o
eixo do Sagrado é deslocado do templo, lugar de culto e de oração tradicional,
para o ser humano, para a corporeidade e para a carne” (MILLEN; BINGEMER, 2005,
p. 201). O corpo é o ponto de união e de estruturação de vários temas da fé
cristã (salvação, espiritualidade e outros). Teologicamente, não é possível
falar de Deus, do ser humano, das relações inter-humanas e da vida pós-mortal,
sem passar pela mediação do corpo. Na fé cristã, tudo gravita em torno do
corpo. “O tema da corporeidade, como interpretada pela Escritura cristã,
poderia bastar para constituir a inteligibilidade de toda a mensagem cristã. O
cristianismo seria como um tratado e uma prática do corpo” (GESCHÉ, 2009, p.
65). O corpo é um fator determinante para a interpretação cristã da
antropologia e da teologia. Ele é o ponto de intersecção entre Deus e o ser
humano. “O corpo não é só um caminho de Deus para o ser humano e da criatura
para o seu Senhor: é a encruzilhada dessa dupla caminhada” (REIJNEN, 2009, p.
205). A teologia trata da relação entre Deus e o ser humano, passando pela
mediação do corpo. “A carne, a substancialidade do corpo, a corporeidade do
homem, ela é o lugar propriamente dito do encontro entre a criatura e o
Criador; ela é o que reúne o meio e o fim, o sentido definitivo e não
provisório, ou, em outras palavras, ela é Cristo” (ALEXANDRE, 2009, p. 107). O
corpo está intimamente relacionado com os sacramentos. O corpo é mediação
necessária para a realização das ações graciosas dos sacramentos. “Os
sacramentos nos dizem que ao invés de colocar obstáculo à comunicação com Deus,
o corpo é o próprio ambiente em que tem lugar a verdade dessa comunicação”
(CHAUVET, 2009, p. 130). No batismo, o corpo é lavado; na crisma, o corpo é
ungido; na eucaristia, o corpo é alimentado; na penitência, o corpo é perdoado;
na unção dos enfermos, o corpo é reabilitado; na ordem, o corpo é consagrado e
no matrimonio, o corpo é unido a outro corpo. O corpo, também, é o veículo
mediador da oração e da espiritualidade cristã. A relação com Deus, no nível pessoal
e comunitário, se dá através do corpo. Assim, o corpo se apresenta como um
elemento integrante e estruturante das práticas espirituais e da
espiritualidade cristãs. O desenvolvimento da espiritualidade não se dá pelo
afastamento, mas pela aproximação do corpo. A espiritualidade não é algo que
vem de fora e afeta o corpo, mas uma dinâmica que emerge de sua interioridade.
O espiritual não é contrário e nem nega o corpóreo, mas eclode de seu âmago
desejante de comunhão. A espiritualidade é uma forma de humanização e de um
florescimento da imagem de Deus impressa na condição humana. A espiritualidade
não exige uma mortificação e nem uma rejeição do corpo, mas uma valorização e
afirmação da realidade corpórea. Trata-se de uma espiritualidade encarnada no corpo
e inserida no contexto social, político, cultural e econômico em que a vida
acontece. O corpo está relacionado com as verdades nucleares da fé cristã
(criação, encarnação, ressurreição e ascensão). O corpo humano faz parte da
obra criadora de Deus. Ele não é um produto marginal que surgiu do acaso e por
acaso na história do ser humano, mas algo criado e desejado por Deus. O corpo
criado por Deus é assumido na encarnação do Verbo eterno. Pela mediação do
Verbo, Deus se faz corpo, matéria e história. O corpo criado e assumido na
encarnação, pelo Verbo eterno, foi ressuscitado. A participação na ressurreição
de Cristo não está reservada a um princípio antropológico (corpo ou alma), mas
à condição humana na sua totalidade. Na ressurreição, o corpo não é abandonado,
mas renovado e transformado qualitativamente. O corpo ressuscitado é recriado e
purificado de suas negatividades e de seus limites (condição espaço-temporal,
provisoriedade, pecado, morte, sofrimento etc.). A identidade corporal é
mantida na ressurreição inaugurada por Cristo, “o primogênito dentre os mortos”
(Cl 1,18). Na ressurreição de Cristo, a condição humana assumida alcança sua
plenitude ontológica. Pela mediação do corpo, a condição temporal, mundana,
social e histórica do ser humano já participa da vida de Deus, através da
ressurreição de Cristo. O ser humano alcançou sua finalidade cristã: participar
do ser de Deus. O corpo, a carne e o ser humano conquistaram sua perfeição. O
corpo criado por Deus, assumido pelo Verbo eterno na encarnação, glorificado na
ressurreição do Filho pelo Pai é ascendido à realidade definitiva (Lc 24,50-51;
At 1,9-11). O corpo assumido é elevado e consagrado eternamente, pela mediação
da ascensão de Jesus Cristo. Isso significa que o corpo assumido não foi um
revestimento provisório da encarnação do Verbo. O corpo não foi
instrumentalizado e nem desprezado pelo Verbo. Na ascensão de Cristo, a
antropologia, por antecipação, se torna eternamente teologia. O corpo foi
acolhido no seio eterno de Deus. Por isso, a ascensão de Cristo já a vitória da
carne, do corpo e da condição humana. Na assunção de Maria, o corpo feminino da
mãe de Jesus, é eternamente consagrado a Deus. Na assunção, a totalidade da
pessoa de Maria é plenificada. A assunção celebra a exaltação e glorificação de
um corpo feminino e materno. A assunção “exalta a feminilidade corpórea, exalta
o corpo da mulher que na plenitude da sua declinação sexuada acede à glória e à
divinização” (MILITELLO, 2010, p. 264). 2.2. A ressurreição do corpo O termo
“ressurreição” significa “levantar”, “ficar de pé”. O morto geralmente está
deitado. É a imagem da morte como sono eterno. Ressuscitar significa acordar do
sono letal. A ressurreição de um morto pode ser concebida de duas maneiras:
restituição da vida física e dádiva de uma nova e permanente condição de vida
escatológica. A Escritura se debruça sobre a segunda opção como ressurreição no
sentido transcendente e escatológico. A ressurreição escatológica aparece no
final do Antigo Testamento, particularmente em Dn 12,2, 2Mc 7,9.11.23 e Sb
3,1-9. Enquanto destino definitivo do crente, o Novo Testamento fala de
ressurreição dos mortos (At 24,21; 1Cor 15,12-13.21.42; Hb 6,2 etc.) ou dentre
os mortos (At 4,2; Lc 20,35 etc.) e não da ressurreição do corpo. No entanto, é
possível pressupor que a ressurreição dos mortos se trata da ressurreição
corpórea. A concepção da ressurreição corpórea surgiu como interpretação da
ressurreição dos mortos em geral (GNILKA, 1970, p. 1310-1311). O evento da
ressurreição de Jesus é fato real, objetivo, ocorrido e testemunhado, porém não
é narrado no Novo Testamento. Narra-se o tumulo vazio e as aparições de Jesus ressuscitado.
A ressurreição de Jesus não consiste num retorno à vida física. Não se trata de
um símbolo e nem de uma simples esperança, mas Jesus de fato entrou na vida
gloriosa com sua totalidade antropológica, em corpo e alma. Sua ressurreição é
um fato de ordem transcendente que não pertence à investigação histórica, mas é
objeto da fé. O crucificado foi ressuscitado por Deus e se apresenta com uma
nova corporeidade. A ressurreição introduz Jesus numa nova condição
escatológica de vida como glorificada e exaltada (Rm 10,9; 14,9; Ef 1,21; Fl
2,7-11; Cl 1,18). O efeito salvífico da ressurreição de Jesus consiste na
comunicação de uma vida àqueles que creem nele. A ressurreição de Jesus é o
princípio da ressurreição do cristão para a vida eterna. O Deus que ressuscitou
Jesus dentre os mortos ressuscitará também o crente (2Cor 4,14). Aqueles que
morrem com Cristo viverão com ele (2Tm 2,11). Jesus é a ressurreição e a vida e
aquele que nele crê será ressuscitado no último dia (Jo 11,25; 6,39-44.54)
(MCKENZIE, 1983, p. 791-793). Em 1Cor 15, Paulo assinala a evolução conceitual
da ressurreição dos mortos para a ressurreição corpórea. O texto apresenta
quatro dimensões: a unidade do ser humano todo (todo o ser humano é destinado a
ressurgir), transformação (a ressurreição não é uma mera continuação com estado
da existência presente), o futuro (a vida nova que o crente possui em Cristo é
uma antecipação da ressurreição) e a necessidade da intervenção de Deus (a
ressurreição está baseada na potência de Deus e não de uma aspiração natural do
ser humano) (MAGGIONI, 2010, p. 1173). Em 1Cor 15,35-42, para responder ao
“como” da ressurreição, Paulo sublinha a iniciativa de Deus: Deus concede à
semente um corpo tal como decidiu e quis. Deus é o criador do corpo do primeiro
ser humano e de cada ser humano atualmente. A relação entre o grão semeado e a
planta adulta ilustra essa questão. Há uma morte do grão e uma ressurreição da
planta. Cada semente possui um corpo específico que consiste em sua identidade.
A continuidade da inciativa de Deus respeita a identidade do corpo em suas
mudanças. Em 1Cor 15,42-44, o corpo corruptível, ressuscita incorruptível;
semeado desprezível, ressuscitado glorioso; semeado fraco, ressuscitado
potente; semeado um corpo psíquico, ressuscita um corpo espiritual. Trata-se da
mesma pessoa que experimenta a glória depois de ter provado a miséria, a
corrupção e a fraqueza. “É o corpo que indica a continuidade e é sobre ele que
se exercem as iniciativas de Deus. Essa continuidade corporal, somática, é
encarada como prosseguimento através de uma transformação profunda, radical e
definitiva do ser: ressurreição” (CARREZ, 1970, p. 1283). Jesus ressuscitou da
morte também corporalmente com toda sua história de vida. Ele comunicou o amor
de Deus aos seres humanos de modo totalmente corporal: em sua palavra
libertadora, sua ação salvífica e sua morte redentora. “Isso tudo é conservado
em seu corpo de ressurreição e levado junto para a vida de Deus; dá-se ao corpo
de Cristo consumado no céu sua forma irrevogavelmente vinculada à terra;
converte-o no espaço de vida salvífico para todos os outros homens, acolhidos
neste corpo do ressuscitado com sua história de vida concreta” (KEHL, 2001, p.
133). A ressurreição corporal do crente constitui a última e necessária
consequência da ação de Deus na ressurreição de Jesus. Há conexão interna e
causal entre a ressurreição de Cristo e a ressurreição geral dos mortos. Os
mortos ressuscitam porque Jesus Cristo ressuscitou. Jesus não é simplesmente um
exemplo ou um caso que pertence à cadeia da ressurreição dos mortos, mas é o
primogênito e inaugurador do mundo dos ressuscitados. A ressurreição de Cristo
é fundamento e força constitutiva da ressurreição dos mortos. O Deus que
ressuscitou Jesus também ressuscitará aquele que nele crê (1Cor 6,14). A
salvação definitiva que Jesus Cristo oferece pressupõe a ressurreição corporal.
A ressurreição não abarca uma parte do ser humano, mas sua totalidade
antropológica. O corpo é parte integrante da ressurreição. Para Paulo, a negação
da ressurreição corporal desintegra os fundamentos da fé na ressurreição e
acaba com a genuína esperança da salvação, que não pode ser senão uma salvação
encarnada e escatológica. No curso da história da teologia, houve correntes
como o docetismo, o gnosticismo, o maniqueísmo e o catarismo que negavam a
dignidade do corpo. Pautados em uma antropologia dualista e uma visão
espiritualista, concebiam o corpo como indigno de ressurreição e de salvação. O
corpo, a carne, a criação e a sexualidade eram vistos de forma pejorativa. O
único princípio antropológico digno de salvação era a alma. Diante dessas
correntes, o cristianismo defendeu a dignidade do corpo e sua participação na
vida ressuscitada. A ressurreição é evento escatológico que abarca a totalidade
antropológica. Em sintonia com a visão bíblica, a teologia defende a
fundamentação cristológica da ressurreição. A ressurreição de Cristo é o
fundamento da ressurreição dos mortos. Defende-se identidade entre o corpo da
existência física e o corpo da existência ressuscitada. O mesmo sujeito da
existência presente o será da existência escatológica, porém transformado. A
ressurreição possui uma dimensão corpórea, corporativa e universal. A
ressurreição tem como destinatário o ser humano, a Igreja e a sociedade. Nesse
contexto, 1Cor 15 é o mais usado para a fundamentação da ressurreição dos
mortos. A ressurreição é associada à criação, à encarnação, à parusia, ao juízo
e à salvação. O Deus que cria e o mesmo ressuscitará o ser humano no último
dia. A ressurreição é vista como uma recriação do corpo e do ser humano. O
corpo assumido na encarnação está destinado à ressurreição. Tudo que foi
assumido será salvo. O evento da ressurreição ocorrerá por ocasião da vinda
gloriosa de Jesus no final dos tempos. Por ocasião da ressurreição, a alma que
se separou do corpo na morte o reencontrará na sua forma gloriosa,
restabelecendo a unidade antropológica. Depois que o ser humano estiver
reconstituído na sua inteireza ontológica, junto a Igreja e a criação,
participará do juízo escatológico. A ressurreição não é um individual ou
privado, mas comunitário e universal O corpo ressuscitado está destinado a
participar da salvação, juntamente com a Igreja e a criação. A salvação não
será um evento desmundanizado, espiritualista e nem privatizado, mas se salvará
o ser humano todo, com a Igreja e a história (SCHMAUS, 1981, p. 182; RUIZ DE LA
PEÑA, 2002, p. 158-165; LADARIA, 2003, p. 346-390; ALVIAR, 2007, p. 162-174;
POZO, 2008, p. 351-367). O corpo humano não se reduz à sua dimensão física e
biológica. O corpo é muito mais do seu componente biológico, mas trata-se de
sua dimensão pessoal. A pessoa se expressa em um corpo. Através do corpo, o ser
humano manifesta sua subjetividade e revela sua identidade. Trata-se também do
lugar da manifestação da sexualidade e dos afetos humanos. É revelação da
condição mortal, da temporalidade, da mundanidade, da sociabilidade e da
historicidade do ser humano. O corpo é um nó de relações. O ser humano é um
corpo no qual se constrói uma identidade, uma biografia e uma história
antropológica sempre em comunhão com os outros. Ser corpo é mais do que ocupar
um lugar no espaço, mas consiste numa construção de uma personalidade. O ser
humano como corpo é um projeto em construção. É esse corpo como núcleo
identitário e como personalidade construída que está destinado à ressurreição.
O corpo da vida ressuscitada é esse reservatório de relações, de memórias e de
afetos. “A ressurreição resgata e plenifica, sobretudo o que constitui
essencialmente a pessoa: as relações pessoais” (SUSIN, 2018, p. 176). A
ressurreição do corpo é a conservação na vida definitiva da história e da
biografia do ser humano que foi sendo tecida nas malhas da condição
espaço-temporal. “Ressurreição do corpo significa que todo o homem com a sua
história de vida, com todas as suas relações com os outros tem um futuro e que,
com a consumação final do homem, é levado a cumprimento também um fragmento do
mundo” (NOCKE, 1997, p. 145). A ressurreição do corpo significa que o ser
humano não encontra realização como um eu espiritual fora da história, mas que
retorna a Deus com toda a sua vida, com o seu mundo e a sua história, isto é,
com todos os outros (GRESHAKE, 2009, p. 95). Pela mediação do corpo, participa
da ressurreição a dimensão histórica, temporal, mundana, social, pessoal e
afetiva do ser humano. A ressurreição não tem como destinatário um indivíduo
des-relacionado, mas um sujeito com suas relações. A ressurreição não é um fato
privado e nem individualizado. Não ressuscita um indivíduo isolado, mas toda a
carne, isto é, toda a criação será transformada. O sujeito da existência
ressuscitada será o mesmo da existência histórica, porém ontologicamente
transformação pela potência ressuscitadora de Deus. “É o mesmo corpo [da vida
terrena] que será transformado e transfigurado na glória, não dois corpos, mas
um mesmo sujeito corporal transformado” (SUSIN, 2018, p. 175). A ressurreição
não é uma nova criação do mesmo sujeito que morreu, mas uma recriação do mesmo.
A ação transformante da ressurreição “não abole a irrepetibilidade da nossa
pessoa porque ela é e permanece ligada ao nosso corpo” (HORST, 1977, p. 159). A
identidade da pessoa é um dado irrepetível e inconfundível. Essa identidade,
que foi sendo construída histórica e evolutivamente, é o que permanece na vida
ressuscitada. “Para que se conserve a identidade, Deus não necessita dos restos
mortais da existência terrena de Jesus. Trata-se de uma ressurreição a uma
forma de existência completamente distinta” (KÜNG, 2007, p. 115). A ressurreição
não é a ressunção do mesmo corpo físico, mas do mesmo corpo pessoal, dotado de
qualidades próprias do mundo dos ressuscitados. A identidade do corpo não se
restringe a uma questão fisiológica, mas pessoal e existencial. Assim, há uma
continuidade identitária e existencial entre o sujeito da vida terrena e da
vida escatológica e uma descontinuidade em termos de duração. “Na ressurreição,
o que é reassumido não é o mesmo corpo material (carne), mas sim o mesmo corpo
pessoal (substancial)” (BOFF, 2012, p. 123). Com a ressurreição, se realiza o
projeto de salvação que tem Deus como seu operador. A salvação contempla toda a
“carne”, ou seja, toda a criação e todo ser humano serão consumados em Deus. A
“carne” não é desprezada ou rejeitada, mas é uma dimensão integrante da
salvação oferecida por Deus. A fé na salvação é comunicada à “carne”, ou seja,
a todo mundo material e concreto (GRESHAKE, 2009, p. 92). O corpo é um elemento
constitutivo do mundo material e criado que será redimido. O ser humano é
“redimido com e em sua corporalidade, agora glorificada, espiritualizada: uma
nova criação, um homem novo” (KÜNG, 2011, p. 189)
Ano
XXXI - Nº 106 - Set - Dez 2023 151 REVISTA DE CULTURA TEOLÓGICA - ISSN - Eletrônico 2317-4307
http://revistas.pucsp.br/culturateo
0 comentários: