sábado, 9 de maio de 2026

REFLEXÕES TEOLÓGICAS SOBRE O CORPO NO ANTIGO TESTAMENTO

 

REFLEXÕES TEOLÓGICAS SOBRE O CORPO NO ANTIGO TESTAMENTO

 A língua hebraica não possui um termo que possa designar, propriamente, o corpo humano. O termo basar está relacionado com a condição efêmera e pode ser traduzido por carne, corpo, parentesco e fragilidade. No Novo Testamento, nos escritos paulinos, o corpo conquista uma relevância antropológica e teológica. UM DOS SIGNIFICADOS DO TERMO “CORPO” DIZ RESPEITO À EXISTÊNCIA CONCRETA DO SER HUMANO. Na visão paulina, a condição contingente, corporal e existencial do ser humano é expressa com dois termos gregos: sarx e soma. O vocábulo sarx, cujo correspondente é o hebraico basar, significa, em geral, a condição carnal comum aos homens e animais. Paulo o restringe à condição carnal humana. Sarx não se refere a uma parte, mas ao ser humano na sua totalidade visível, física e externa. Trata-se da condição débil, frágil, desejante, mundana, solidária e mortal do ser humano. É o ser humano exposto ao pecado e à corrupção. A dimensão sarx designa a solidariedade do ser humano com a criação e o seu distanciamento de Deus (BULTMANN, 2004, p. 291-298; ROBINSON, 1968, p. 25-36; RUIZ DE LA PEÑA, 1988, p. 72-74). O vocábulo sarx tem uma correspondência com soma (corpo), que por sua vez designa o ser humano todo. O termo soma designa a dimensão externa, física, mundana, solidária, relacional e sexual do ser humano. Soma não é algo que o ser humano tem, mas o que ele é. O termo uma proximidade com o conceito de personalidade. O ser humano todo é uma realidade somática. Soma é Ano XXXI - Nº 106 - Set - Dez 2023 149 REVISTA DE CULTURA TEOLÓGICA ISSN - Eletrônico 2317-4307 http://revistas.pucsp.br/culturateo o ser humano solidário com a criação e orientado para Deus. Paulo fala de ressurreição do corpo e não carne (BULTMANN, 2004, p. 247-259; ROBINSON, 1968, p. 36-44; RUIZ DE LA PEÑA, 1988, p. 74-77). A frontalidade bíblica e os primeiros séculos do cristianismo, até por volta dos inícios do século III, o corpo era valorizado e visto de forma positiva. O corpo era visto como sede da imagem de Deus, a realidade assumida por Cristo na encarnação e que estava destinado a participar da ressurreição no último dia. Foi a partir da escola de Alexandria (séc. III) que o corpo começou a ser tratado de forma marginal na antropologia e na teologia. A revalorização teológica do corpo começou na segunda metade do século XX, no contexto da consideração teológica de temas antropológicos (morte, liberdade, pessoa, etc.), escatológicos (ressurreição da carne, a participação do corpo na vida pós-mortal, a dimensão escatológica do presente e da atividade humana, etc.) e cristológicos (encarnação, a relação entre cristologia e antropologia, etc.). O corpo passou a ser considerado como um verdadeiro objeto de reflexão teológica. Assim, começou a surgir uma produção reflexiva e bibliográfica sobre o corpo. Nesse contexto de uma recuperação teológica e do surgimento de produção bibliográfica em torno do corpo, pode dizer que o corpo “não é mais um túmulo, mas aquilo que ressurge do túmulo, o que não se encontra seu lugar no túmulo” (GESCHÉ, 2009, p. 67). O corpo é talvez o lugar teológico por excelência tanto do ser humano como de Deus. Pelo corpo, o ser humano vai ao encontro de Deus e Deus vem ao seu encontro. “Antropologicamente, se posso chegar verdadeira e realmente até Deus só mediante meu corpo, ou seja, por meio do meu estar-no-mundo em todas as suas dimensões, também Deus só pode vir até mim, nascer em mim, encarnando-se, inserindo-se em meu corpo de desejo, formando corpo comigo, isto é, correspondendo efetivamente a minhas aspirações [...]; do contrário ele permanecerá heterogêneo a mim e sem acesso a minha vida concreta atual, ele tornar-se-á uma abstração literalmente insignificante” (FAMERÉE, 2009, p. 26). O corpo é o lugar do encontro com Deus, com o outro, com a criação e com o próprio ser humano. O corpo não é um oponente ou inimigo de Deus, mas o princípio antropológico mediador do encontro com ele. O corpo é templo do Espírito Santo (1Cor 3,16; 6,19). O ser humano é um santuário ambulante, uma igreja a céu aberto. O corpo é um território sagrado e um espaço de manifestação de Deus. “Habitando na corporeidade humana, o Espírito Santo faz do ser humano seu templo, sua morada. O cristianismo traz [...] o fato de que o eixo do Sagrado é deslocado do templo, lugar de culto e de oração tradicional, para o ser humano, para a corporeidade e para a carne” (MILLEN; BINGEMER, 2005, p. 201). O corpo é o ponto de união e de estruturação de vários temas da fé cristã (salvação, espiritualidade e outros). Teologicamente, não é possível falar de Deus, do ser humano, das relações inter-humanas e da vida pós-mortal, sem passar pela mediação do corpo. Na fé cristã, tudo gravita em torno do corpo. “O tema da corporeidade, como interpretada pela Escritura cristã, poderia bastar para constituir a inteligibilidade de toda a mensagem cristã. O cristianismo seria como um tratado e uma prática do corpo” (GESCHÉ, 2009, p. 65). O corpo é um fator determinante para a interpretação cristã da antropologia e da teologia. Ele é o ponto de intersecção entre Deus e o ser humano. “O corpo não é só um caminho de Deus para o ser humano e da criatura para o seu Senhor: é a encruzilhada dessa dupla caminhada” (REIJNEN, 2009, p. 205). A teologia trata da relação entre Deus e o ser humano, passando pela mediação do corpo. “A carne, a substancialidade do corpo, a corporeidade do homem, ela é o lugar propriamente dito do encontro entre a criatura e o Criador; ela é o que reúne o meio e o fim, o sentido definitivo e não provisório, ou, em outras palavras, ela é Cristo” (ALEXANDRE, 2009, p. 107). O corpo está intimamente relacionado com os sacramentos. O corpo é mediação necessária para a realização das ações graciosas dos sacramentos. “Os sacramentos nos dizem que ao invés de colocar obstáculo à comunicação com Deus, o corpo é o próprio ambiente em que tem lugar a verdade dessa comunicação” (CHAUVET, 2009, p. 130). No batismo, o corpo é lavado; na crisma, o corpo é ungido; na eucaristia, o corpo é alimentado; na penitência, o corpo é perdoado; na unção dos enfermos, o corpo é reabilitado; na ordem, o corpo é consagrado e no matrimonio, o corpo é unido a outro corpo. O corpo, também, é o veículo mediador da oração e da espiritualidade cristã. A relação com Deus, no nível pessoal e comunitário, se dá através do corpo. Assim, o corpo se apresenta como um elemento integrante e estruturante das práticas espirituais e da espiritualidade cristãs. O desenvolvimento da espiritualidade não se dá pelo afastamento, mas pela aproximação do corpo. A espiritualidade não é algo que vem de fora e afeta o corpo, mas uma dinâmica que emerge de sua interioridade. O espiritual não é contrário e nem nega o corpóreo, mas eclode de seu âmago desejante de comunhão. A espiritualidade é uma forma de humanização e de um florescimento da imagem de Deus impressa na condição humana. A espiritualidade não exige uma mortificação e nem uma rejeição do corpo, mas uma valorização e afirmação da realidade corpórea. Trata-se de uma espiritualidade encarnada no corpo e inserida no contexto social, político, cultural e econômico em que a vida acontece. O corpo está relacionado com as verdades nucleares da fé cristã (criação, encarnação, ressurreição e ascensão). O corpo humano faz parte da obra criadora de Deus. Ele não é um produto marginal que surgiu do acaso e por acaso na história do ser humano, mas algo criado e desejado por Deus. O corpo criado por Deus é assumido na encarnação do Verbo eterno. Pela mediação do Verbo, Deus se faz corpo, matéria e história. O corpo criado e assumido na encarnação, pelo Verbo eterno, foi ressuscitado. A participação na ressurreição de Cristo não está reservada a um princípio antropológico (corpo ou alma), mas à condição humana na sua totalidade. Na ressurreição, o corpo não é abandonado, mas renovado e transformado qualitativamente. O corpo ressuscitado é recriado e purificado de suas negatividades e de seus limites (condição espaço-temporal, provisoriedade, pecado, morte, sofrimento etc.). A identidade corporal é mantida na ressurreição inaugurada por Cristo, “o primogênito dentre os mortos” (Cl 1,18). Na ressurreição de Cristo, a condição humana assumida alcança sua plenitude ontológica. Pela mediação do corpo, a condição temporal, mundana, social e histórica do ser humano já participa da vida de Deus, através da ressurreição de Cristo. O ser humano alcançou sua finalidade cristã: participar do ser de Deus. O corpo, a carne e o ser humano conquistaram sua perfeição. O corpo criado por Deus, assumido pelo Verbo eterno na encarnação, glorificado na ressurreição do Filho pelo Pai é ascendido à realidade definitiva (Lc 24,50-51; At 1,9-11). O corpo assumido é elevado e consagrado eternamente, pela mediação da ascensão de Jesus Cristo. Isso significa que o corpo assumido não foi um revestimento provisório da encarnação do Verbo. O corpo não foi instrumentalizado e nem desprezado pelo Verbo. Na ascensão de Cristo, a antropologia, por antecipação, se torna eternamente teologia. O corpo foi acolhido no seio eterno de Deus. Por isso, a ascensão de Cristo já a vitória da carne, do corpo e da condição humana. Na assunção de Maria, o corpo feminino da mãe de Jesus, é eternamente consagrado a Deus. Na assunção, a totalidade da pessoa de Maria é plenificada. A assunção celebra a exaltação e glorificação de um corpo feminino e materno. A assunção “exalta a feminilidade corpórea, exalta o corpo da mulher que na plenitude da sua declinação sexuada acede à glória e à divinização” (MILITELLO, 2010, p. 264). 2.2. A ressurreição do corpo O termo “ressurreição” significa “levantar”, “ficar de pé”. O morto geralmente está deitado. É a imagem da morte como sono eterno. Ressuscitar significa acordar do sono letal. A ressurreição de um morto pode ser concebida de duas maneiras: restituição da vida física e dádiva de uma nova e permanente condição de vida escatológica. A Escritura se debruça sobre a segunda opção como ressurreição no sentido transcendente e escatológico. A ressurreição escatológica aparece no final do Antigo Testamento, particularmente em Dn 12,2, 2Mc 7,9.11.23 e Sb 3,1-9. Enquanto destino definitivo do crente, o Novo Testamento fala de ressurreição dos mortos (At 24,21; 1Cor 15,12-13.21.42; Hb 6,2 etc.) ou dentre os mortos (At 4,2; Lc 20,35 etc.) e não da ressurreição do corpo. No entanto, é possível pressupor que a ressurreição dos mortos se trata da ressurreição corpórea. A concepção da ressurreição corpórea surgiu como interpretação da ressurreição dos mortos em geral (GNILKA, 1970, p. 1310-1311). O evento da ressurreição de Jesus é fato real, objetivo, ocorrido e testemunhado, porém não é narrado no Novo Testamento. Narra-se o tumulo vazio e as aparições de Jesus ressuscitado. A ressurreição de Jesus não consiste num retorno à vida física. Não se trata de um símbolo e nem de uma simples esperança, mas Jesus de fato entrou na vida gloriosa com sua totalidade antropológica, em corpo e alma. Sua ressurreição é um fato de ordem transcendente que não pertence à investigação histórica, mas é objeto da fé. O crucificado foi ressuscitado por Deus e se apresenta com uma nova corporeidade. A ressurreição introduz Jesus numa nova condição escatológica de vida como glorificada e exaltada (Rm 10,9; 14,9; Ef 1,21; Fl 2,7-11; Cl 1,18). O efeito salvífico da ressurreição de Jesus consiste na comunicação de uma vida àqueles que creem nele. A ressurreição de Jesus é o princípio da ressurreição do cristão para a vida eterna. O Deus que ressuscitou Jesus dentre os mortos ressuscitará também o crente (2Cor 4,14). Aqueles que morrem com Cristo viverão com ele (2Tm 2,11). Jesus é a ressurreição e a vida e aquele que nele crê será ressuscitado no último dia (Jo 11,25; 6,39-44.54) (MCKENZIE, 1983, p. 791-793). Em 1Cor 15, Paulo assinala a evolução conceitual da ressurreição dos mortos para a ressurreição corpórea. O texto apresenta quatro dimensões: a unidade do ser humano todo (todo o ser humano é destinado a ressurgir), transformação (a ressurreição não é uma mera continuação com estado da existência presente), o futuro (a vida nova que o crente possui em Cristo é uma antecipação da ressurreição) e a necessidade da intervenção de Deus (a ressurreição está baseada na potência de Deus e não de uma aspiração natural do ser humano) (MAGGIONI, 2010, p. 1173). Em 1Cor 15,35-42, para responder ao “como” da ressurreição, Paulo sublinha a iniciativa de Deus: Deus concede à semente um corpo tal como decidiu e quis. Deus é o criador do corpo do primeiro ser humano e de cada ser humano atualmente. A relação entre o grão semeado e a planta adulta ilustra essa questão. Há uma morte do grão e uma ressurreição da planta. Cada semente possui um corpo específico que consiste em sua identidade. A continuidade da inciativa de Deus respeita a identidade do corpo em suas mudanças. Em 1Cor 15,42-44, o corpo corruptível, ressuscita incorruptível; semeado desprezível, ressuscitado glorioso; semeado fraco, ressuscitado potente; semeado um corpo psíquico, ressuscita um corpo espiritual. Trata-se da mesma pessoa que experimenta a glória depois de ter provado a miséria, a corrupção e a fraqueza. “É o corpo que indica a continuidade e é sobre ele que se exercem as iniciativas de Deus. Essa continuidade corporal, somática, é encarada como prosseguimento através de uma transformação profunda, radical e definitiva do ser: ressurreição” (CARREZ, 1970, p. 1283). Jesus ressuscitou da morte também corporalmente com toda sua história de vida. Ele comunicou o amor de Deus aos seres humanos de modo totalmente corporal: em sua palavra libertadora, sua ação salvífica e sua morte redentora. “Isso tudo é conservado em seu corpo de ressurreição e levado junto para a vida de Deus; dá-se ao corpo de Cristo consumado no céu sua forma irrevogavelmente vinculada à terra; converte-o no espaço de vida salvífico para todos os outros homens, acolhidos neste corpo do ressuscitado com sua história de vida concreta” (KEHL, 2001, p. 133). A ressurreição corporal do crente constitui a última e necessária consequência da ação de Deus na ressurreição de Jesus. Há conexão interna e causal entre a ressurreição de Cristo e a ressurreição geral dos mortos. Os mortos ressuscitam porque Jesus Cristo ressuscitou. Jesus não é simplesmente um exemplo ou um caso que pertence à cadeia da ressurreição dos mortos, mas é o primogênito e inaugurador do mundo dos ressuscitados. A ressurreição de Cristo é fundamento e força constitutiva da ressurreição dos mortos. O Deus que ressuscitou Jesus também ressuscitará aquele que nele crê (1Cor 6,14). A salvação definitiva que Jesus Cristo oferece pressupõe a ressurreição corporal. A ressurreição não abarca uma parte do ser humano, mas sua totalidade antropológica. O corpo é parte integrante da ressurreição. Para Paulo, a negação da ressurreição corporal desintegra os fundamentos da fé na ressurreição e acaba com a genuína esperança da salvação, que não pode ser senão uma salvação encarnada e escatológica. No curso da história da teologia, houve correntes como o docetismo, o gnosticismo, o maniqueísmo e o catarismo que negavam a dignidade do corpo. Pautados em uma antropologia dualista e uma visão espiritualista, concebiam o corpo como indigno de ressurreição e de salvação. O corpo, a carne, a criação e a sexualidade eram vistos de forma pejorativa. O único princípio antropológico digno de salvação era a alma. Diante dessas correntes, o cristianismo defendeu a dignidade do corpo e sua participação na vida ressuscitada. A ressurreição é evento escatológico que abarca a totalidade antropológica. Em sintonia com a visão bíblica, a teologia defende a fundamentação cristológica da ressurreição. A ressurreição de Cristo é o fundamento da ressurreição dos mortos. Defende-se identidade entre o corpo da existência física e o corpo da existência ressuscitada. O mesmo sujeito da existência presente o será da existência escatológica, porém transformado. A ressurreição possui uma dimensão corpórea, corporativa e universal. A ressurreição tem como destinatário o ser humano, a Igreja e a sociedade. Nesse contexto, 1Cor 15 é o mais usado para a fundamentação da ressurreição dos mortos. A ressurreição é associada à criação, à encarnação, à parusia, ao juízo e à salvação. O Deus que cria e o mesmo ressuscitará o ser humano no último dia. A ressurreição é vista como uma recriação do corpo e do ser humano. O corpo assumido na encarnação está destinado à ressurreição. Tudo que foi assumido será salvo. O evento da ressurreição ocorrerá por ocasião da vinda gloriosa de Jesus no final dos tempos. Por ocasião da ressurreição, a alma que se separou do corpo na morte o reencontrará na sua forma gloriosa, restabelecendo a unidade antropológica. Depois que o ser humano estiver reconstituído na sua inteireza ontológica, junto a Igreja e a criação, participará do juízo escatológico. A ressurreição não é um individual ou privado, mas comunitário e universal O corpo ressuscitado está destinado a participar da salvação, juntamente com a Igreja e a criação. A salvação não será um evento desmundanizado, espiritualista e nem privatizado, mas se salvará o ser humano todo, com a Igreja e a história (SCHMAUS, 1981, p. 182; RUIZ DE LA PEÑA, 2002, p. 158-165; LADARIA, 2003, p. 346-390; ALVIAR, 2007, p. 162-174; POZO, 2008, p. 351-367). O corpo humano não se reduz à sua dimensão física e biológica. O corpo é muito mais do seu componente biológico, mas trata-se de sua dimensão pessoal. A pessoa se expressa em um corpo. Através do corpo, o ser humano manifesta sua subjetividade e revela sua identidade. Trata-se também do lugar da manifestação da sexualidade e dos afetos humanos. É revelação da condição mortal, da temporalidade, da mundanidade, da sociabilidade e da historicidade do ser humano. O corpo é um nó de relações. O ser humano é um corpo no qual se constrói uma identidade, uma biografia e uma história antropológica sempre em comunhão com os outros. Ser corpo é mais do que ocupar um lugar no espaço, mas consiste numa construção de uma personalidade. O ser humano como corpo é um projeto em construção. É esse corpo como núcleo identitário e como personalidade construída que está destinado à ressurreição. O corpo da vida ressuscitada é esse reservatório de relações, de memórias e de afetos. “A ressurreição resgata e plenifica, sobretudo o que constitui essencialmente a pessoa: as relações pessoais” (SUSIN, 2018, p. 176). A ressurreição do corpo é a conservação na vida definitiva da história e da biografia do ser humano que foi sendo tecida nas malhas da condição espaço-temporal. “Ressurreição do corpo significa que todo o homem com a sua história de vida, com todas as suas relações com os outros tem um futuro e que, com a consumação final do homem, é levado a cumprimento também um fragmento do mundo” (NOCKE, 1997, p. 145). A ressurreição do corpo significa que o ser humano não encontra realização como um eu espiritual fora da história, mas que retorna a Deus com toda a sua vida, com o seu mundo e a sua história, isto é, com todos os outros (GRESHAKE, 2009, p. 95). Pela mediação do corpo, participa da ressurreição a dimensão histórica, temporal, mundana, social, pessoal e afetiva do ser humano. A ressurreição não tem como destinatário um indivíduo des-relacionado, mas um sujeito com suas relações. A ressurreição não é um fato privado e nem individualizado. Não ressuscita um indivíduo isolado, mas toda a carne, isto é, toda a criação será transformada. O sujeito da existência ressuscitada será o mesmo da existência histórica, porém ontologicamente transformação pela potência ressuscitadora de Deus. “É o mesmo corpo [da vida terrena] que será transformado e transfigurado na glória, não dois corpos, mas um mesmo sujeito corporal transformado” (SUSIN, 2018, p. 175). A ressurreição não é uma nova criação do mesmo sujeito que morreu, mas uma recriação do mesmo. A ação transformante da ressurreição “não abole a irrepetibilidade da nossa pessoa porque ela é e permanece ligada ao nosso corpo” (HORST, 1977, p. 159). A identidade da pessoa é um dado irrepetível e inconfundível. Essa identidade, que foi sendo construída histórica e evolutivamente, é o que permanece na vida ressuscitada. “Para que se conserve a identidade, Deus não necessita dos restos mortais da existência terrena de Jesus. Trata-se de uma ressurreição a uma forma de existência completamente distinta” (KÜNG, 2007, p. 115). A ressurreição não é a ressunção do mesmo corpo físico, mas do mesmo corpo pessoal, dotado de qualidades próprias do mundo dos ressuscitados. A identidade do corpo não se restringe a uma questão fisiológica, mas pessoal e existencial. Assim, há uma continuidade identitária e existencial entre o sujeito da vida terrena e da vida escatológica e uma descontinuidade em termos de duração. “Na ressurreição, o que é reassumido não é o mesmo corpo material (carne), mas sim o mesmo corpo pessoal (substancial)” (BOFF, 2012, p. 123). Com a ressurreição, se realiza o projeto de salvação que tem Deus como seu operador. A salvação contempla toda a “carne”, ou seja, toda a criação e todo ser humano serão consumados em Deus. A “carne” não é desprezada ou rejeitada, mas é uma dimensão integrante da salvação oferecida por Deus. A fé na salvação é comunicada à “carne”, ou seja, a todo mundo material e concreto (GRESHAKE, 2009, p. 92). O corpo é um elemento constitutivo do mundo material e criado que será redimido. O ser humano é “redimido com e em sua corporalidade, agora glorificada, espiritualizada: uma nova criação, um homem novo” (KÜNG, 2011, p. 189)

Ano XXXI - Nº 106 - Set - Dez 2023 151 REVISTA DE CULTURA TEOLÓGICA  - ISSN - Eletrônico 2317-4307  

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