sábado, 9 de dezembro de 2017

“UMA JOIA DA LITERATURA CRISTÃ PRIMITIVA”



EPÍSTOLA A DIOGNETO
Um pagão culto, desejoso de conhecer melhor a nova religião que se espalhava pelas províncias do império romano, impressionado pela maneira como os cristãos desprezavam o mundo, a morte e os deuses pagãos, pelo amor com que se amavam, queria saber: que Deus era aquele em quem confiavam e que gênero de culto lhe prestavam; de onde vinha aquela raça nova e por que razão aparecera na história tão tarde. Foi para responder a estas e outras questões de igual importância que nasceu esta joia da literatura cristã primitiva, o escrito que conhecemos como Epístola a Diogneto. O texto se revela, simultaneamente, como crítica do paganismo e do judaísmo e defesa da superioridade do cristianismo. Sobre este documento, infelizmente, não se sabe muita coisa. Elementos importantes que ajudam a determinar e caracterizar uma obra, tais como autor, data e local de composição, bem como o destinatário, ficam na sombra. De qualquer maneira trata-se de um documento de primeira grandeza sobre a vida cristã primitiva que merece ser colocado entre as obras mais brilhantes da literatura cristã. De acordo com os últimos estudos o destinatário mais provável seria o imperador Adriano, que exercia a função de arconte em Atenas desde 112 d.C.
                                                    Exódio
     Excelentíssimo Diogneto,
1- Vejo que te interessas em aprender a religião dos cristãos e que, muito sábia e cuidadosamente te informaste sobre eles: Qual é esse Deus no qual confiam e como o veneram, para que todos eles desdenhem o mundo, desprezem a morte, e não considerem os deuses que os gregos reconhecem, nem observem a crença dos judeus; que tipo de amor é esse que eles têm uns para com os outros; e, finalmente, por que esta nova estirpe ou gênero de vida apareceu agora e não antes. Aprovo este teu desejo e peço a Deus, o qual preside tanto o nosso falar como o nosso ouvir, que me conceda dizer de tal modo que, ao escutar, te tornes melhor; e assim, ao escutares, não se arrependa aquele que falou.
                                     Refutação da idolatria
2 – Comecemos: Purificado de todos os preconceitos que se amontoam em sua mente; despojado do teu hábito enganador, e tornado, pela raiz, homem novo; e estando para escutar, como confessas, uma doutrina nova, vê não somente com os olhos, mas também com a inteligência, que substância e que forma possuem os que dizeis que são deuses e assim os considerais; não é verdade que um é pedra, como a que pisamos; outro é bronze, não melhor que aquele que serve para fazer os utensílios que usamos; outro é madeira que já está podre; outro ainda é prata, que necessita de alguém que o guarde, para que não seja roubado; outro é ferro, consumido pela ferrugem; outro de barro, não menos escolhido que aquele usado para os serviços mais vis? Tudo isso não é de material corruptível? Não são lavrados com o ferro e o fogo? Não foi o ferreiro que modelou um, o ourives outro e o oleiro outro? Não é verdade que antes de serem moldados pelos artesãos na forma que agora têm, cada um deles poderia ser, como agora transformado em outro? E se os mesmos artesãos trabalhassem os mesmos utensílios do mesmo material que agora vemos, não poderiam transformar-se em deuses como esses? E, ao contrário, esses que adorais, não poderiam transformar-se, por mãos de homens, em utensílios semelhantes aos demais? Essas coisas todas não são surdas, cegas, inanimadas, insensíveis, imóveis? Não apodrecem todas elas? Não são destrutíveis? A essas coisas chamais de deuses, as servis, as adorais, e terminais sendo semelhante a elas. Depois, odiais os cristãos, porque estes não os consideram deuses. Contudo, vós que os julgais e imaginais deuses, não os desprezais mais do que eles? Por acaso não zombais deles e os cobris ainda mais de injúrias, vós que venerais deuses de pedra e de barro, sem ninguém que os guarde, enquanto fechais à chave, durante a noite, aqueles feitos de prata e de ouro, e de dia colocais guardas para que não sejam roubados? Com as honras que acreditais tributar-lhes, se é que eles têm sensibilidade, na verdade os castigais com elas; por outro lado, se são insensíveis, vós os envergonhais com sacrifícios de sangue e gordura. Caso contrário, que alguém de vós prove essas coisas e permita que elas lhe sejam feitas. Mas o homem, espontaneamente, não suportaria tal suplício, porque tem sensibilidade e inteligência; a pedra, porém, suporta tudo, porque é insensível. Concluindo, eu poderia dizer-te outras coisas sobre o motivo que os cristãos têm para não se submeterem a esses deuses. Se o que eu disse parece insuficiente para alguém, creio que seja inútil dizer mais alguma coisa.
                                              Refutação do culto judaico
3 - Por outro lado, creio que desejais particularmente saber por que eles não adoram Deus à maneira dos judeus. Os judeus têm razão quando rejeitam a idolatria, de que falamos antes, e presta culto a um só Deus, considerando-o Senhor do universo. Contudo, erram quando lhe prestam um culto semelhante ao dos pagãos. Assim como os gregos demonstram idiotice, sacrificando a coisas insensíveis e surdas, eles também, pensando em oferecer coisas a Deus, como se ele tivesse necessidade delas, realizam algo que é parecido a loucura, e não um ato de culto.
“Quem fez o céu e a terra, e tudo o que neles existe”, e que provê todo aquilo de que necessitamos, não tem necessidade nenhuma desses bens. Ele próprio fornece as coisas àqueles que acreditam oferece-las a ele. Aqueles que creem oferecer-lhe sacrifícios com sangue, gordura e holocaustos, e que o enaltecem com esses atos, não me parecem diferentes daqueles que tributam reverência a ídolos surdos, que não podem participar do culto. Os outros imaginam estar dando algo a quem de nada precisa.
                                            O ritualismo judaico
4- Não creio que tenhas necessidade de que eu te informe sobre o escrúpulo deles a respeito de certos alimentos, a sua superstição sobre os sábados, seu orgulho da circuncisão, seu fingimento com jejuns e novilúnios, coisas todas ridículas, que não merecem nenhuma consideração.
Não será injusto aceitar algumas das coisas criadas por Deus para uso dos homens como um bem criado e rejeitar outras como inúteis e supérfluas? Não é sacrílego caluniar a Deus, imaginando que nos proíbe fazer algum bem em dia de sábado? Não é digno de zombaria orgulhar-se da mutilação do corpo como sinal de eleição, acreditando, com isso ser particularmente amados por Deus? E o fato de estar em perpétua vigilância diante dos astros e da lua, para calcular os meses e os dias, e distribuir as disposições de Deus, e dividir as mudanças das estações conforme seus próprios impulsos, umas para festa e outras para luto? Quem consideraria isto prova de insensatez e não de religião? Penso que agora tenhas entendido suficientemente por que os cristãos estão certos em se abster da vaidade e do engano, assim como das complicadas observâncias e das vanglórias dos judeus. Não creia que possa aprender do homem o mistério de sua própria religião.
                                         Os mistérios cristãos
5- Os cristãos, de fato, não se distinguem dos outros homens, nem por sua terra, nem por sua língua ou costumes. Com efeito, não moram em cidades próprias, nem falam língua estranha, nem têm algum modo especial de viver. Sua doutrina não foi inventada por eles, graças ao talento e a especulação de homens curiosos, nem professam, como outros, algum ensinamento humano. Pelo contrário, vivendo em casa gregas e bárbaras, conforme a sorte de cada um, e adaptando-se aos costumes do lugar quanto à roupa, ao alimento e ao resto, testemunham um modo de vida admirável e, sem dúvida, paradoxal. Vivem na sua pátria, mas como forasteiros; participam de tudo como cristãos e suportam tudo como estrangeiros. Toda pátria estrangeira é pátria deles, a cada pátria é estrangeira. Casam-se como todos e geram filhos, mas não abandonam os recém-nascidos. Põe a mesa em comum, mas não o leito; estão na carne, mas não vivem segundo a carne; moram na terra, mas têm sua cidadania no céu; obedecem as leis estabelecidas, as com sua vida ultrapassam as leis; amam a todos e são perseguidos por todos; são desconhecidos e, apesar disso, condenados; são mortos e, deste modo, lhes é dada a vida; são pobres e enriquecem a muitos; carecem de tudo e tem abundância de tudo; são desprezados e, no desprezo, tornam-se glorificados; são amaldiçoados e, depois, proclamados justos; são injuriados, e bendizem; são maltratados, e honram; fazem o bem, e são punidos como malfeitores; são condenados, e se alegram como se recebessem a vida. Pelos judeus são combatidos como estrangeiros, pelos gregos são perseguidos, a aqueles que os odeiam não saberiam dizer o motivo do ódio.
                     A alma do mundo
 6 - Em poucas palavras, assim como a alma está no corpo, assim estão os cristãos no mundo. A alma está espalhada por todas as partes do corpo, e os cristãos estão em todas as partes do mundo. A alma habita no corpo, mas não procede do corpo; os cristãos habitam no mundo, mas não são do mundo. A alma invisível está contida num corpo visível; os cristãos são vistos no mundo, mas sua religião é invisível. A carne odeia e combate a alma, embora não tenha recebido nenhuma ofensa dela, porque esta a impede de gozar dos prazeres; embora não tenha recebido injustiça dos cristãos, o mundo os odeia, porque estes se opõem aos prazeres. A alma ama a carne e os membros que a odeiam; também os cristãos amam aqueles que os odeiam.
 A alma está contida no corpo, mas é ela que sustenta o corpo; também os cristãos estão no mundo como numa prisão, mas são eles que sustentam o mundo.  A alma imortal habita em uma tenda mortal; também os cristãos habitam como estrangeiros em moradas que se corrompem, esperando a incorruptibilidade nos céus. Maltratada em comidas e bebidas, a alma torna-se melhor; também os cristãos, maltratados, a cada dia mais se multiplicam. Tal é o posto que Deus lhes determinou, e não lhes é lícito dele desertar.
                    Origem divina do cristianismo
7 - De fato, como já disse, não é uma invenção humana que lhes foi transmitida, nem julgam digno observar com tanto cuidado um pensamento mortal, nem se lhes confiou a administração de mistérios humanos. Ao contrario, aquele que é verdadeiramente senhor e criador de tudo, o Deus invisível, ele próprio fez descer do céu, para o meio dos homens, a verdade, a palavra santa e incompreensível, e a colocou em seus corações. Fez isso, não andando para os homens, como alguém poderia imaginar algum dos seus servos, ou um anjo, ou algum príncipe daqueles que governam as coisas terrestres, ou algum dos que são encarregados das administrações dos céus, mas o próprio artífice e criador do universo; aquele por meio do qual ele criou os céus e através do qual encerrou o mar em seus limites; aquele cujo mistério todos os elementos guardam fielmente; aquele de cuja mão o sol recebeu as medidas que deve observar em seu curso cotidiano; aquele a quem a lua obedece, quando lhe manda luzir durante a noite; aquele a quem obedecem as estrelas que formam o séquito da lua em seu percurso; aquele que, finalmente, por meio do qual todo foi ordenado, delimitado e disposto: os céus e as coisas que existem nos céus, a terra e as coisas que existem na terra, o mar e as coisas que existem no mar, o fogo, o ar, o abismo, aquilo que está no alto, o que está no profundo e o que está no meio. Foi esse que Deus enviou. Talvez, como alguém poderia pensar, será que o enviou para que existisse uma tirania ou para infundir-nos medo e prostração? De modo algum. Ao contrário, enviou-o com clemência e mansidão, como um rei que envia seu filho. Deus o enviou, e o enviou como homem para os homens; enviou-o para nos salvar, para persuadir, e não para violentar, pois em Deus não há violência. Enviou-o para chamar, e não para castigar; enviou-o, finalmente, para amar, e não para julgar.
Ele o enviará para julgar, e quem poderá suportar sua presença? Não vês como os cristãos são jogados às feras, para que reneguem o Senhor, e não se deixam vencer? Não vês como quanto mais são castigados com a morte, tanto mais outros se multiplicam? Isso não parece obra humana. Isso pertence ao poder de Deus e prova a sua presença.
                                         A Encarnação
8 - Quem de todos os homens sabia o que é Deus, antes que ele próprio viesse? Quererás aceitar os discursos vazios e estúpidos dos filósofos, que por certo são dignos de toda fé? Alguns afirmam que Deus é o fogo - para onde irão estes, chamando-o de deus? - Outros diziam que é água. Outros ainda que é dos elementos criados por Deus. Não há dúvida de que se alguma dessas afirmações é aceitável, poderíamos também afirmar que cada uma de todas as criaturas igualmente manifesta Deus. Mas todas essas coisas são charlatanices e invenções de charlatães. Nenhum homem viu, nem conheceu a Deus, mas ele próprio se revelou a nós. Revelou-se mediante a fé, unicamente pala qual é concedido ver a Deus. Deus, Senhor e criador do universo, que fez todas as coisas e as estabeleceu em ordem, não só se mostrou amigo dos homens, mas também paciente. Ele sempre foi assim, continua sendo, e o será: clemente, bom, manso e verdadeiro. Somente ele é bom. Tendo concebido grande e inefável projeto, ele o comunicou somente ao Filho. Enquanto o mantinha no mistério e guardava sua sábia vontade, parecia que não cuidava de nós, não pensava em nós. Todavia, quando, por meio de seu Filho amado, revelou e manifesto o que tinha estabelecido desde o princípio, concedeu-nos junto todas as coisas: não só participar de seus benefícios, mas ver e compreender coisas que nenhum de nós teria jamais esperado.
                                           A economia divina
 9 - Quando Deus dispôs todo em si mesmo juntamente com seu Filho, no tempo passado, ele permitiu que nós, conforme a nossa vontade, nos deixássemos arrastar por nossos impulsos desordenados, levados por prazeres e concupiscências. Ele não se comprazia com os nossos pecados, mas também os suportava. Também não aprovava aquele tempo de injustiça, mas preparava o tempo atual de justiça, para que nos convencêssemos de que naquele tempo, por causa de nossas obras, éramos indignos da vida, mas agora só pela bondade de Deus, somos dignos dela.
Também para que ficasse claro que por nossas forças era impossível entrar no Reino de Deus, e que somente pelo seu poder nos tornamos capazes disso. Quando a nossa injustiça chegou ao máximo e ficou claro que a única retribuição que poderiam esperar era castigo e morte, chegou o tempo que Deus estabelecera para manifestar a sua bondade e o seu poder. Oh imensa bondade e amor de Deus! Ele não nos odiou, não nos rejeitou, nem guardou ressentimento contra nós. Pelo contrário, mostrou-se paciente e nos suportou. Com, misericórdia tomou para si os nossos pecados e enviou o seu Filho para nos resgatar: o santo pelos ímpios, o inocente pelos maus, o justo pelos injustos, o incorruptível pelos corruptíveis, o imortal pelos mortais. De fato, que outra coisa poderia cobrir nossos pecados, senão a sua justiça? Por meio de quem poderíamos ter sido justificados nós, injustos e ímpios, a não ser unicamente pelo Filho de Deus? Oh doce troca, oh obra insondável, oh inesperados benefícios! A injustiça de muito é reparada por um só justo, e a justiça de um só torna justos muitos outros. Ele antes nos convenceu da impotência da nossa natureza para ter a vida; agora mostra-nos o salvador capaz de salvar até mesmo o impossível Com essas duas coisas, ele quis que confiássemos na sua bondade e considerássemos nosso sustentador, pai, mestre, conselheiro, médico, inteligência, luz, homem, glória, força, vida, sem preocupações com a roupa e o alimento.
                                  A essência da nova religião
10 - Se também desejas alcançar esta fé, primeiro deves obter o conhecimento do Pai. Deus, com efeito, amou os homens. Para eles criou o mundo e a eles submeteu todas as coisas que estão sobre a terra. Deu-lhes a palavra e a razão, e só a eles permitiu contemplá-lo. Formou-os à sua imagem, enviou-lhes o seu Filho unigênito, anunciou-lhes o reino do céu, e o dará àqueles que o tiverem amado. Depois de conhecê-lo, tens ideia da alegria com que será preenchido? Como não amarás aquele que tanto te amou? Amando-o, tu te tornarás imitador da sua bondade. Não te maravilhes de que um homem possa se tornar imitador de Deus. Se Deus quiser, o homem poderá. A felicidade não está em oprimir o próximo, ou em querer estar por cima dos mais fracos, ou enriquecer-se e praticar violência contra os inferiores. Deste modo, ninguém pode imitar a Deus, pois tudo isto está longe de sua grandeza. Todavia, quem toma para si o peso do próximo, e naquilo que é superior procura beneficiar o inferior; aquele que dá aos necessitados o que recebeu de Deus, é como Deus para os que receberam de sua mão, é imitador de Deus. Então, ainda estando na terra, contemplarás porque Deus reina nos céus.
Aí começarás a falar dos mistérios de Deus, amarás e admirarás os que são castigados por não querer negar a Deus. Condenarás o erro e o engano do mundo, quando realmente conheceres a vida no céu, quando desprezares esta vida que aqui parece morte, e temeres a morte verdadeira, reservada àqueles que estão condenados ao fogo eterno, que atormentarás até o fim aqueles que lhe forem entregues. Se conheceres este fogo, ficarás admirado, e chamarás de felizes aqueles que, com justiça, suportaram o fogo passageiro.
                                             O discípulo do Verbo
11- Não falo de coisas estranhas, nem busco coisas absurdas. Discípulo dos apóstolos, eu me torno agora mestre das nações e transmito o que me foi entregue para aqueles que se tornaram discípulos dignos da verdade. De fato quem foi retamente instruído e gerado pelo Verbo amável, não procura aprender com clareza o que o mesmo Verbo claramente mostrou aos seus discípulos?
O Verbo apareceu para eles, manifestando-se e falando livremente. Os incrédulos não o compreenderam, mas ele guiou os discípulos os quais julgou fiel, e estes conheceram os mistérios do Pai. Deu enviou o Verbo como graça, para que se manifestasse ao mundo. Desprezado pelo povo, foi anunciado pelos apóstolos a acreditado pelos pagãos. Desde o princípio e apareceu como novo e era antigo, a agora sempre se torna novo nos corações dos fiéis. Ele é desde sempre, e hoje é reconhecido como Filho. Por meio dele, a Igreja se enriquece e a graça se multiplica, difundindo-se nos fiéis. Essa graça inspira a sabedoria, desvela os mistérios e anuncia os tempos, alegra-se nos fiéis, entrega-se aos que a buscam, sem infringir as regras da fé nem ultrapassar os limites dos Padres. Celebra-se então o temor da lei, reconhecesse a graça dos profetas, conserva-se a fé dos evangelhos, guarda-se a tradição dos apóstolos e a graça da Igreja exulta. Não contristando essa graça, saberás o que o Verbo diz por meio dos que ele quer e quando quer. Com efeito, quantas coisas lhe explicamos com zelo pela vontade do Verbo que no-las inspira! Nós vos comunicamos por amor essas mesmas coisas que nos foram reveladas.
                                       A verdadeira ciência
12 - Atendendo e ouvindo com cuidado, conhecereis que coisas Deus prepara para os que o amam com lealdade. Transformam-se em paraíso de delícias, produzindo em si mesma uma arvora fértil e frondosa, ornados com toda a variedade de frutos. Com efeito, neste lugar foi plantada a árvore da ciência e a arvora da vida; não é a arvora da ciência que mata, e sim a desobediência. Não é sem sentido que está escrito: No princípio Deus plantou a arvora da ciência da vida no meio do paraíso, indicando assim a vida por meio da ciência. Contudo, por não tê-la usado de maneira pura, os primeiros homens ficaram nus por causa da sedução da serpente. De fato, não há vida sem ciência, nem ciência segura sem verdadeira vida, e por isso as duas árvores foram plantadas uma perto da outra. Compreendendo essa força e lastimando a ciência que se exercita sobre a vida sem a norma da verdade, o Apóstolo diz: “A ciência incha; o amor, porém, edifica.”.
De fato, quem pensa que sabe alguma coisa sem a verdadeira ciência, testemunhada pela vida, não sabe nada: é enganado pala serpente, não tendo amado a vida. Aquele, porém, que sabe com temor e procura a vida, planta na esperança, esperando o fruto. Que a ciência seja coração para ti; a vida seja o Verbo verdadeiramente compreendido. Levando a arvora dele e produzindo fruto, sempre colherás o que é agradável diante de Deus, o que a serpente não toca, nem se mistura em engano; nem Eva é corrompida, mas reconhecida como virgem. A salvação é mostrada, os apóstolos são compreendidos, a Páscoa do Senhor se adianta, os círios se reúnem, harmoniza-se com o mundo, e instruindo os santos o Verbo se alegra, pelo qual em tudo o Pai é glorificado.
A ele, a glória pelos séculos. 
Amém.
Viahttp://www.autoresespiritasclassicos.com/evangelhos%20apocrifos/Apocrifos/1/Evangelhos%20Ap%C3%B3crifos%20-%20Ep%C3%ADstola%20de%20Diogneto.pdf



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sábado, 14 de outubro de 2017

A ORAÇÃO DE SANTO AGOSTINHO!




                     NO ANO DE 387 APÓS SER BATIZADO, AGOSTINHO SE REFUGIOU COM SUA MÃE, SEU FILHO, E ALGUNS AMIGOS EM CASSICÍACO, UMA ALDEIA AO NORTE DE MILÃO, PERÍODO EM QUE SE DEDICOU TOTALMENTE AO ESTUDO, À FILOSOFIA, À MEDITAÇÃO E SATISFAÇÃO DE SEU ANSEIO: 
“A PROCURA DE DEUS E DA VERDADE”. 
FOI NESTA ÉPOCA QUE AGOSTINHO ESCREVEU UMA DE SUAS OBRAS PRIMAS – SOLILÓQUIOS -, E AO INICIAR A PRODUÇÃO DO LIVRO, ELE OROU E TRANSCREVEU PARA O MESMO SUA COMOVENTE ORAÇÃO QUE, SEM DÚVIDAS, ESTÁ INSERIDA ENTRE AS PÉROLAS DA LITERATURA CRISTÃ DE TODOS OS TEMPOS.

Deus, criador de todas as coisas, conceda-me primeiramente que eu faça uma boa oração; em seguida, que me torne digno de ser ouvido por ti; por fim, que me atendas. Deus, por quem tende a ser tudo aquilo que por si só não existiria. Deus, que não permites que pereça nem mesmo aquilo que se destrói. Deus, que do nada criaste este mundo, o qual acham belíssimo, os olhos de todos os que o contemplam. Deus, que não fazes o mal e fazes que este não seja pior. Deus, que mostras aos poucos, que se aproximam do que é verdadeiro, que o mal é nada. Deus, por quem todas as coisas são perfeitas, ainda com a parte que lhes toca de imperfeição. Deus, por quem se atenua ao máximo qualquer dissonância quando as coisas piores se harmonizam com as melhores. Deus, a quem amam, consciente ou inconscientemente, todos os que possam amar. Deus, em quem todas as coisas subsistem e para quem, contudo, não é torpe a torpeza de qualquer criatura, a quem não prejudica a sua malícia nem o afasta o seu erro. Deus, que não quiseste que conhecessem a verdade senão os puros. Deus, Pai da verdade, Pai da sabedoria, Pai da verdadeira e suprema vida, Pai da felicidade, Pai do que é bom e belo, Pai da luz inteligível, pai do nosso desvelo e iluminação, Pai da garantia pela qual somos aconselhados’ a retornar a ti.

Eu te invoco, Deus Verdade, em quem, por quem e mediante quem é verdadeiro tudo o que é verdadeiro. Deus Sabedoria, em quem, por quem e mediante quem têm sabedoria todos os que sabem. Deus, verdadeira e suprema Vida, em quem, por quem e mediante quem tem vida tudo o que goza de vida verdadeira e plena. Deus Felicidade, em quem, por quem e mediante quem são felizes todos os seres que gozam de felicidade. Deus Bondade e Beleza, em quem, por quem e mediante quem é bom e belo, tudo o que tem bondade e beleza. Deus Luz inteligível, em quem, por quem e mediante quem tem brilho inteligível, tudo o que brilha com inteligência. Deus, cujo reino é o mundo inteiro, a quem o sentido não percebe. Deus, de cujo reino procede também a lei para os reinos da terra. Deus, de quem separar-se significa cair, a quem retornar significa levantar-se, em quem permanecer significa ser firme. Deus, de quem afastar-se é morrer, ao qual voltar é reviver, em quem habitar é viver. Deus, a quem ninguém deixa senão enganado, a quem ninguém busca senão estimulado para isso, a quem encontra senão purificado. Deus, a quem abandonar é o mesmo que perecer, a quem acatar é o mesmo que amar, a quem ver é o mesmo que possuir. Deus, a quem a fé nos estimula, a esperança nos eleva, o amor nos une.
Eu te invoco, Deus, por quem vencemos o inimigo. Deus, de quem recebemos o fato de não perecermos totalmente. Deus, por quem somos admoestados a estar atentos. Deus, por quem discernimos as coisas boas e as coisas más. Deus, por quem evitamos as coisas más e seguimos as boas. Deus, por quem não caímos diante das adversidades. Deus, por quem prestamos bons serviços e nos portamos bem. Deus, por quem aprendemos que é de outros, o que às vezes julgávamos ser nosso, e que nos pertence o que às vezes julgávamos ser de outros. Deus, por quem não nos aquiescemos às artimanhas e seduções dos maus. Deus, por quem as pequeninas coisas não nos diminuem. Deus, por quem o que há de melhor em nós, não está sujeito ao que há de pior. Deus, por quem a morte é absorvida na vitória. Deus, que nos convertes. Deus, que nos despes daquilo que não é, e nos revestes daquilo que é. Deus, que nos fazes dignos de ser ouvidos. Deus, que nos fortificas. Deus, que nos atrais para toda verdade. Deus, que nos falas tudo o que é bom, não nos fazes de tolos nem permites que quem quer que seja nos faça de tolos. Deus, que nos chamas para o caminho. Deus, que nos levas à porta. Deus, que fazes com que a porta seja aberta aos que batem. Deus, que nos dás o pão da vida. Deus, por quem temos sede de uma bebida que, uma vez tomada, faz que nunca mais tenhamos sede. Deus, que acusas o mundo do pecado, justiça e juízo. Deus, por quem não nos induzem aqueles que não creem. Deus, por quem censuramos o erro dos que julgam que não há méritos das almas junto a ti. Deus, por quem não servimos aos elementos covardes e miseráveis. Deus, que nos purificas e nos preparas para os prêmios divinos, achega-te a mim com benevolência.

Tudo o que eu disse és tu, Deus único. Vem em meu auxílio, substância uma, eterna e verdadeira, em quem não há discrepância, confusão, mudança, indigência nem morte. Onde há plena concórdia, total evidência, total constância, suma plenitude e vida plena. Em quem nada falta, nada sobra. Em quem aquele que gera e o que é por ele gerado são um só. Deus, a quem servem todas as criaturas capazes de servir, a quem obedece toda alma boa. Por cujas leis giram os corpos celestes, os astros cumprem seus cursos, o sol traz o dia, a lua suaviza a noite e todo o mundo, à medida que o suporta a matéria sensível, mantém uma grande constância em relação às ordens estabelecidas e reiterações, isto é, no decurso dos dias: pela alternância da luz e da noite; no decorrer dos meses: pelas fases lunares; no decurso dos anos: pelas sucessões da primavera, verão, outono e inverno; no decorrer de intervalos de cinco anos: pela conclusão do curso solar; no decurso de grandes períodos: pelo retorno dos astros aos seus cursos. Deus, por cujas leis subsistentes na eternidade não se permite que se perturbe o movimento instável das coisas mutáveis, o qual, em virtude dos freios dos mundos circunvolventes, sempre se reitera à guisa de estabilidade; por cujas leis o homem tem livre arbítrio, sendo consequentemente distribuídos prêmios aos bons e castigos aos maus, em tudo de acordo com exigências estabelecidas. Deus, de quem procedem até nós, todos os bens, por cuja força coercitiva, são afastados de nós todos os males. Deus, acima de quem nada existe, além de quem nada existe, sem o qual nada existe. Deus, abaixo de quem está tudo, em quem está tudo, com quem está tudo. Que fizeste o homem à tua imagem e semelhança, fato este que é reconhecido por aquele que se conhece a si mesmo. Ouve-me, ouve-me, meu Deus, meu senhor, meu rei, meu pai, meu criador, minha esperança, minha realidade, minha honra, minha residência, minha pátria, minha salvação, minha luz, minha vida. Ouve-me, ouve-me, ouve-me com aquele teu jeito bem conhecido de poucos.

Amo somente a ti, sigo somente a ti, busco somente a ti, estou disposto a servir somente a ti e desejo estar sob a tua jurisdição, porque somente tu governas com justiça. Manda e ordena o que quiseres, mas sana e abres meus ouvidos para ouvir tuas palavras; sana e abre meus olhos para enxergar os teus acenos. Afasta de mim a ignorância para que eu te reconheça. Dize-me para onde devo voltar-me para ver-te e espero fazer tudo o que mandares. Suplico-te: recebe teu fugitivo, Senhor e Pai clementíssimo; já sofri muito; já servi demais aos teus inimigos, os quais sujeitas sob teus pés; por muito tempo fui ludibriado por falácias. Recebe-me, que sou teu escravo fugindo deles, que me receberam estranho a eles, quando eu fugia de ti. Sinto em mim que devo voltar a ti. Abra-se tua porta para mim, que estou batendo. Ensina-me com chegar a ti. Nada mais tenho que a vontade. Nada mais sei senão que se deve desprezar as coisas passageiras e transitórias, e procurar o que é certo e eterno. Faça-o, Pai, porque é a única coisa que sei; porém, ignoro como chegar a ti. Ensina-me, mostra-me, oferece-me as provisões para a viagem. Se for com a fé que te encontram os que se refugiam em ti, dá-me fé; se é com a força, dá-me força; se é com a ciência, dá-me ciência. Aumenta em mim a fé, aumenta a esperança, aumenta o amor. Ó admirável e singular bondade tua.

Almejo-te; e novamente te peço aquilo que se necessita para almejar-te. Perece aquele a quem abandonares; mas não abandonas, porque és o bem supremo a quem não deixa de encontrar aquele que procura corretamente. E procura corretamente todo aquele a quem conduzes para que procure corretamente. Faze Pai, que eu te procure, mas livra-me do erro. Nenhuma outra coisa, além de ti, se apresente a mim, que te estou procurando. Se nada mais desejo senão a ti, Pai, então eu te encontro logo. Mas se houver em mim desejo de algo supérfluo, limpa-me  e torna-me apto a ver-te. Quanto ao mais, em relação à saúde do meu corpo mortal, confio-o a ti, porquanto não sei que utilidade possa haver nele para mim ou para aqueles a quem amo. Pai sapientíssimo e ótimo, em relação a isso orarei no tempo em que me avisares. Apenas rogo à tua excelentíssima clemência que me convertas totalmente a ti e faças com que nada se oponha a mim, que caminho para ti e que, durante o tempo em que carrego e lido com este mesmo corpo, eu seja puro, magnânimo, justo e prudente, perfeito amante da tua sabedoria, aplicando-me à sua percepção, digno da habitação, e de ser habitante do teu reino tão feliz. 
Amém e amém.







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segunda-feira, 9 de outubro de 2017

O ADULTÉRIO: UMA REFLEXÃO EM APOCALIPSE 2.4,5!



Mirtes era uma linda moça que nasceu no interior e mudou para a capital em busca da realização do sonho de estudar, e se tornar advogada.
No início seguiu à risca a meta traçada, porém à maneira que foi conhecendo novos amigos, o sonho foi colocado de lado. Começou a frequentar barezinhos e boates da moda. Em pouco tempo estava totalmente envolvida na nova vida, cuja prioridade era a busca dos prazeres carnais. Tudo foi maravilhoso até o dia em que descobriu estar grávida.
 O choque foi grande. No desespero fez um aborto e este ato lhe causou uma séria infecção levando-a a ficar internada uma semana para tratamento, e neste período de repouso forçado conheceu um médico plantonista que lhe dedicou uma atenção especial. 
A atenção do jovem médico - João Carlos – fez com que Mirtes refletisse nos erros cometidos e decidisse voltar a buscar  seu alvo inicial. Ao sair do hospital retornou aos estudos e aprofundou o relacionamento com João Carlos. 
Um ano depois já estavam casados. 
João Carlos era um marido dedicado, exemplar, e sempre disposto a realizar os desejos de Mirtes. Por ter tempo disponível, ela resolveu paralelamente ao curso de direito, estudar inglês e francês, mas aos poucos estes cursos exigiram demanda maior de tempo, e uma consequente diminuição do tempo para os assuntos matrimoniais.
Mirtes se formou, o casamento continuou, mas o relacionamento com o marido perdeu a intensidade, as relações em vários momentos era algo insípido, os compromissos a dois ficaram cada vez mais raros, e fez-se inverno no amor.
Foi nesse contexto, que ela foi contratada para defender um cliente em outra cidade, e naquela viagem de três dias encontrou um ex-colega de faculdade. Como os dois se hospedaram no mesmo hotel, não houve entrave para o início de um caso amoroso.
Na volta para casa, Mirtes até pensou contar tudo ao marido e pedir a separação, mas optou por esperar algum tempo, e no decorrer da espera, decidiu que o mais cômodo era ficar com os dois:

TORNOU-SE UMA ADÚLTERA.

A história de Mirtes e João Carlos é uma fiel metáfora da história que muitos cristãos têm com Jesus. Quando estão na pior, quando o barco está afundando, a boca grita por socorro, e busca-se Nele a cura e proteção. Normalmente faz-se uma opção por frequentar com assiduidade as reuniões em templos religiosos, e nelas levantam as mãos em adoração, declaram em alto e bom som o amor ao Senhor, porém à maneira que vão se sentindo melhor, os afazeres se tornam mais importantes.
A frequência às reuniões vai se espaçando até chegar ao ponto em que só se comparece em dias festivos. Assim, marcam presença, visitam e dão uma satisfação aos “quase amados” irmãos.
Gritam ao mundo que amam Jesus, mas a falta de tempo os impede de ser participantes em sua obra. A Bíblia vai sendo esquecida, pois há relatórios a ser redigidos, há os cursos de aperfeiçoamento, estudo de processos, visita a novos clientes, etc.
Calmamente, porém eficazmente o pecado os conduz a um proceder dúbio, em que a boca declara amor, mas o coração atesta apenas interesse, ou seja, o adultério está caracterizado.
Que esta estória não seja sua história, mas, se acaso for, não se desespere, nem se conforme:
“Lembra-te, pois de onde caíste, arrepende-te e volta à prática das primeiras obras”. Jesus ainda lhe ama!


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domingo, 25 de junho de 2017

QUANDO MORREM, AS CRIANÇAS VÃO PARA O CÉU?



"O amor de Deus pelas crianças é algo cristalino na Escritura, já encontrar  a "era da responsabilidade" é bem mais difícil."
          Há alguns anos, eu levei um grupo de estudantes universitários para a bacia amazônica a fim de compartilhar o amor de Cristo em algumas comunidades remotas. 
Após vários dias, deixei um pequeno grupo de estudantes em uma aldeia, e continuei em direção a outra. Depois de minha partida, uma jovem daquela comunidade perdeu tragicamente seu bebê de 6 meses, morte provocada pela desidratação e por uma doença desconhecida. Os pais, então pediram aos meus alunos que fizessem o funeral. Esses jovens de 19 e 20 anos não estavam preparados para o peso emocional e espiritual da situação, mas fizeram o melhor que puderam para confortar essa família, porém, todos sentiram o agudo fardo de responder às inevitáveis ​​questões teológicas decorrentes de uma perda tão difícil: 
    O que acontece quando as crianças morrem? Eles são salvos? O que dizemos para consolar os pais em suas dúvidas?
                         É natural, talvez até inevitável, que procuremos conforto na esperança de que Deus acolhe os pequenos no céu quando o tempo deles for dolorosamente cortado na terra. Embora a maioria dos cristãos afirme a doutrina do pecado herdado e confie que o perdão do pecado vem apenas através da fé pessoal em Cristo, também acreditam que Deus por ser bom e gracioso, lidará de forma misericordiosa neste caso, e considerará que apesar de nascer em pecado, esta criança é muito jovem para fazer uma profissão de fé. 
 É possível biblicamente afirmar que Deus salva crianças pequenas sem a necessidade de arrependimento do pecado e de expressar fé em Cristo?
Teólogos e líderes cristãos ao longo da história buscaram responder a esse problema nodoso. Agostinho e Ambrósio argumentaram que, uma vez que os bebês herdam a culpa do pecado, e não apenas a natureza do pecado, somente os bebês batizados seriam salvos. John Calvin e CH Spurgeon sustentaram que a eleição de Deus poderia se estender às crianças, e então elas já nasceriam predestinadas à salvação. Uma variação desta visão argumenta que Deus reconhece quem irá crer, então elas seriam salvas, mesmo que elas morressem antes de atingir a idade ou capacidade mental para crer.
               Essas visões podem fazer sentido teológico, mas muitas vezes não possuem suporte claro nas escrituras e faz as pessoas se sentirem desconfortáveis ao afirmar que elas sejam válidas para as crianças. 
              De todas as abordagens propostas para resolver este problema, a ideia de uma  "era da responsabilidade", se tornou uma das opiniões mais populares em um amplo espectro de evangélicos, pois afinal oferece uma solução sensata, e também abrangente.
                        O conceito da idade de responsabilidade, é que Deus não responsabiliza os filhos pela culpa de seus pecados, até que eles consigam uma percepção moral adequada de suas escolhas. Crianças que não chegaram a essa idade de responsabilidade irão para o céu, porque Deus não lhes impõe a culpa de seus pecados. Em outras palavras, Deus não responsabiliza as crianças por erros ainda não cometidos e erros que nem sabem que irão cometer.
               Esta posição teológica certamente é atraente por uma série de razões, mas há apoio bíblico para a noção de uma "era de responsabilidade"? 
Embora algumas passagens possam parecer afirmar a ideia, elas não a apoiam diretamente quando vistas em um contexto mais amplo:
Deuteronômio 1:39
"Vossos meninos, contudo, dos quais dizíeis que seriam levados cativos, vossos filhos que ainda não sabem discernir entre o bem do mal, entrarão na terra. Eu a darei a eles para que a possuam ".
          O contexto deste versículo relaciona-se com a geração rebelde de Hebreus que foram punidos com 40 anos de andanças no deserto. Deus proíbe que a geração rebelde entre na Terra Prometida, mas neste versículo Ele promete, não só permitir a entrada na terra, mas também  a dará aos filhos, porque eles "ainda não sabiam discernir entre o bem do mal".
         Como Deus não responsabilizava os filhos hebreus pelos pecados de seus pais, as pessoas usam esse verso como suporte para a idade da responsabilidade, mas o detalhe é que, nesta passagem, "crianças" se refere aos que eram naquela época muito jovens e não elegíveis para o serviço militar, ou seja, as pessoas com 20 anos ou menos. 
                     Embora a maioria dos adolescentes, certamente tenha muito tempo para amadurecer, parece improvável sugerir que eles não sejam, de alguma forma, moralmente responsáveis nessa idade.
Isaías 7: 15-16
"Ele se alimentará de coalhada e de mel até que saiba rejeitar o mal e escolher o bem. Com efeito, antes que o menino saiba rejeitar o mal e escolher o bem, a terra, por cujos dois reis tu te apavoras, ficará reduzida a ermo"
            Esta passagem relaciona-se diretamente com a famosa profecia de que "a virgem conceberá e dará à luz um filho" ( Isaías 7:14 ). Estes versículos afirmam que o "menino" em sua juventude ainda não saberia discernir a diferença entre certo e errado. O autor bíblico sugere que haverá um período de tempo, antes que a criança tenha uma compreensão da moral. Infelizmente, esta passagem não pretende estabelecer os parâmetros para quando uma criança pode ser vista como moralmente culpada; em vez disso, o foco está na libertação vencida de Deus.
2 Samuel 12:23
"Mas agora que ele está morto, por que eu deveria seguir em jejum? Posso trazê-lo de volta? Eu irei até ele, mas ele não vai voltar para mim. "
            De longe, o lamento de Davi pela morte de seu filho primogênito com Bate-Seba, é o versículo mais familiar sobre este assunto. Enquanto a criança estava morrendo por conseqüência direta do pecado de Davi, David jejuou e orou com esperança de que Deus fosse misericordioso; mas uma vez que a criança morreu, ele parou de sofrer. David reconheceu que a única forma dele se reunir novamente com seu filho, era quando ele também viesse a morrer.
                 Embora este versículo ofereça enorme conforto pastoral e, talvez, até forneça algumas evidências claras, permitindo afirmar que as crianças pequenas estejam em segurança com Deus, embora nos dê uma base para ter esperança em relação às crianças, infelizmente não sugere que a idade de responsabilidade seja o motivo para a esperança.
                    O Novo Testamento também não ensina que haja em termos, uma idade de prestação de contas. Alguns dizem que a argumentação de Romanos 7:9, é a de não impor castigo por pecados até que os culpados estejam cientes de seu crime, mas essa hipótese não condiz com o que Paulo diz, pois em realidade seu argumento é sobre o funcionamento da lei, não sugerindo que as pessoas sejam inocentes antes de conhecê-la.             Outra passagem citada é Atos 17.29-31: porém, aqui, o argumento de Paulo é bem claro, ou seja, de que Deus é o Deus de todos, judeus e gentios, e portanto Ele os conclama a se arrependerem de sua idolatria. Em nenhum momento, Paulo diz que Deus negligencia o pecado até certo ponto.  Alguns até tentam usar o sentido de "caindo em si", na parábola do filho pródigo, - Lucas 15:17- como suporte para o ensino de que exista uma idade da responsabilidade, porém novamente aqui, há uma nítida intenção de forçar a Bíblia a dizer o que ela não está dizendo.

Misericórdia para os jovens e maliciosos
     Mesmo que houvesse nitidamente um apoio bíblico para a existência de uma "idade da responsabilidade", ainda seria praticamente impossível determinar exatamente quando uma criança chegaria a essa idade. 
A maioria argumenta que isso ocorre em algum momento entre os 4 e os 12 anos de idade, mas é um argumento baseado em tradições extra-bíblicas. 
          Com certeza, as crianças crescem e, à medida que amadurecem, irão enfrentar finalmente a realidade do pecado e sua própria culpa moral, mas dizer que estas crianças não estão cientes do bem e do mal, parece contradizer a experiência da maioria das pessoas que as criaram. Os pais sabem que, mesmo em uma idade muito jovem, as crianças tem a noção de quando estão sendo impertinentes. 
Tenho como exemplo, uma ocasião em que minha esposa e eu estávamos sentados na sala de estar, e nossa filha de 5 anos de repente passou por nós e exclamou: "Nada!" Sem que nós houvéssemos suspeitado de algo.
              De acordo com a pesquisa de Karen Wynn no Centro de Cognição Infantil da Universidade de Yale, também conhecido como "O Laboratório do Bebé", bebês com três meses de idade preferem as pessoas que os ajudam em detrimento das que tenta feri-los. Em outro estudo de J. Kiley Hamlin, da Universidade da Colúmbia Britânica, foi observado que bebês de até oito meses, compreendem quando devem ser punidos os indivíduos praticantes de ações "ruins". O professor de psicologia de Yale, Paul Bloom, que é casado com Wynn, explica que a sensação de moralidade encontrada em bebês apesar de "profundamente limitada", e mesmo sendo um "produto do desenvolvimento cultural", ainda é algo presente.
   Portanto, se os bebês de três meses já demonstram uma consciência da diferença entre o certo e o errado, potencialmente torna-se enfraquecida a noção de uma era ou de uma "idade da responsabilidade".
                   Unindo a falta de apoio bíblico, às evidências cotidianas e aos estudos psicológicos sugerindo que as crianças, são de fato, capazes de reconhecer o comportamento bom e ruim muito cedo, talvez não devamos usar a ideia da "idade de responsabilidade" como base para a nossa esperança em relação às crianças .
    Como evangélicos, cremos que a salvação é propiciada exclusivamente por meio da fé em Cristo, mas temos boas razões para acreditar que o seu poder salvador se estende a todas crianças que ainda são muito jovens para tomar uma decisão. Afinal, o que a Bíblia nos ensina explicitamente sobre Deus, deve dissipar toda e qualquer preocupação sobre o destino de bebês e crianças pequenas. Portanto, não precisamos de conjecturas como a da "idade da responsabilidade".
A principal razão pela qual podemos ter esperança, é porque Deus é um juiz bom e justo. Como Abraão disse: "Não fará justiça o juiz de toda a terra?" ( Gn 18:25 ). Por vermos essa ideia ecoando em toda a Escritura, confiamos confiantemente que Deus sempre faz e fará o que é bom, certo e perfeito (Deuteronômio 32:4). 
Outra razão pela qual não precisamos de uma idade da responsabilidade é porque a doutrina da graça de Deus é claramente evidente na Escritura   (Ex 34: 6; Salmo 103:8; Lam 3:22; Joel 2:13; João 1:14; Romanos 3: 22-24; Efésios 2:8-9). 
           Certamente, a graça de Deus se estende a toda a humanidade, e especialmente às crianças.
            Na verdade, Jesus disse muitas coisas específicas sobre crianças, e é claro que Deus cuida preferentemente delas, dedicando-lhes um amor profundo. Jesus, inclusive ensinou que devemos nos tornar como crianças para entrar no reino dos céus (Mateus 18:2-5, Lucas 18:17); e também advertiu que ninguém deveria desprezar os "pequeninos", porque "seus anjos no céu sempre vêem a face do meu Pai que está nos céus" (Mateus 18:10). 
          Jesus também disse: "deixe as crianças chegarem a mim", porque o reino dos céus lhes pertence (Mateus 19:14). Além disso, Jesus ameaçou um castigo severo para qualquer um que causasse mal ou fizesse uma criança tropeçar ( Mateus 18: 6-7 ). 
    E, se Jesus exalta as crianças desta maneira, podemos nos convencer de que crianças ao morrerem estarão seguras em sua guarda, e Ele é bom, amável, misericordioso e justo. Podemos confiar que Deus cuida das crianças, de forma acima do que jamais iríamos compreender. Quando a vida das pequenas crianças são cortadas e nossa visão é borrada pelas lágrimas, podemos ter certeza de que Ele irá cuidar graciosamente delas, de uma maneira bem consistente. Ele é um Pai Celestial bom e amoroso que sempre faz o que é certo (Salmos 33: 4-5). 
Ele sempre age de acordo com seu caráter santo, justo, misericordioso, gracioso, amoroso e bom - o mesmo caráter amoroso que o levou a enviar seu próprio Filho para morrer por um mundo de pecadores.
            Naquele dia escuro na floresta amazônica, meus alunos auxiliaram os pais e a maioria da comunidade a cavarem uma pequena sepultura na selva. Havia naquela comunidade, apenas um punhado de crentes e, eles   ao buscarem respostas de Deus, pediram aos meus alunos que fizessem o funeral. 
        À medida que os raios solares pontilhavam o chão da selva coberta de folhas, esses alunos representavam o amor, a esperança e a salvação de Deus para aquele povo marcado pela dor. 
              Embora fosse uma experiência imensamente difícil, esses alunos podiam falar com confiança sobre o amor e o bem de Deus, e dar àqueles pais, novos na fé em Cristo, um enorme conforto, pois lhes propiciaram saber que seu filho, agora estava com Deus.

Autor: ALAN BANDY 
                  [Alan Bandy é professor de Novo Testamento e grego na Oklahoma Baptist University. Ele recentemente co-autor, com Benjamin Merkle, Understanding Prophecy: Uma abordagem bíblica-teológica (Grand Rapids: Kregel Academic, 2015].
Publicado em 26 DE MAIO DE 2017 na Revista Christianit Today
http://www.christianitytoday.com/ct/2013/may-web-only/do-all-children-go-to-heaven.html

Traduzido por: Fabio Silveira de Faria


 

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terça-feira, 25 de abril de 2017

QUESTÕES IMPORTANTES SOBRE A QUEDA


Questões Importantes Sobre a Queda
O registro das Escrituras sobre a queda fornece a única explicação adequada para o presente estado decaído do homem e o mal que nos cerca. É também mediante este plano de fundo tenebroso que as resplandecentes glórias da misericórdia e da graça de Deus surgem. Nossa compreensão mínima das glórias de Cristo e Seu Evangelho é diretamente proporcional ao nosso entendimento da tragédia de Adão e sua condenação.
Em nosso estudo da queda, nos deparamos com algumas das questões mais importantes e complexas de todas as Escrituras: a origem do mal, a natureza da liberdade humana, a soberania de Deus, e Seu eterno propósito. Ainda que o que conhecemos a respeito de tais questões será sempre envolto em um determinado grau de mistério, é necessário que nos esforcemos por conhecer o que pudermos. Façamos as seguintes questões:
Como Adão pôde cair?
Deus ordenou a queda?
Qual o propósito eterno de Deus na queda?
COMO ADÃO PÔDE CAIR?
As Escrituras afirmam que a queda não ocorreu devido a nenhuma falha no Criador. Todas as obras de Deus são perfeitas (Deuteronômio 32:4), Ele não pode ser tentado pelo pecado (Tiago 1:13), nem pode Ele tentar outros com o pecado (Tiago 1:13). A culpa pela queda repousa perfeitamente sobre os ombros de Adão. Como Eclesiastes 7:29 declara: “Eis o que tão-somente achei: que Deus fez o homem reto, mas ele se meteu em muitas astúcias.”
Esta verdade apresenta um dos maiores problemas teológicos em todas as Escrituras: como é possível que uma criatura criada à imagem de Deus veio a escolher o mal e o pecado? Adão e Eva tinham uma verdadeira inclinação para o bem, e não havia nenhuma corrupção ou mal neles para qual a tentação pudesse apelas. Como tais justos seres puderam escolher o mal ao invés do bem, e escolher as palavras de uma serpente ao invés das ordens de seu Criador, está além da compreensão humana.
Houve numerosas tentativas ao longo da história de explicar a queda de Adão, mas nenhuma delas deixa de ter suas limitações. Devemos, portanto, nos contentarmos com a simples verdade da Escritura que, embora tenha Deus feito o homem justo e santo, ele era finito e mutável (isto é, sujeito a mudança) e capaz de fazer uma escolha contrária à vontade de Deus.
DEUS ORDENOU A QUEDA?
A palavra ordenar significa colocar em ordemdispor, ou designar. Perguntar se Deus ordenou a queda é perguntar se ele a colocou em ordem, a dispôs, designou que ela ocorresse. Outras palavras que carregam significado similar são: “decretar”, “predeterminar”, e “predestinar”. Deus determinou de antemão ou decretou que a queda deveria ocorrer? A resposta para esta pergunta é “sim”, mas nós devemos ter muito cuidado com o que isto significa e o que isto não significa.
A ordenança de Deus da queda não significa que Ele forçou Satanás a tentar nossos primeiros pais, ou que Ele os coagiu a desprezar Sua ordem. O que as criaturas de Deus fizeram, elas fizeram por sua própria vontade. Deus é santo, justo, e bom. Ele não peca, não pode ser tentado pelo pecado, Ele não tenta ninguém ao pecado.
A ordenança de Deus da queda significa que isto era certo de acontecer. Foi da vontade de Deus que Adão fosse testado, e foi da vontade de Deus deixar que Adão tanto se mantivesse de pé quanto caísse sozinho sem o auxílio divino que poderia tê-lo impedido de cair. Deus poderia ter impedido que Satanás dispusesse a tentação diante de Eva, ou à face de tal tentação, Ele poderia ter dado a Adão uma graça sustentadora especial para capacitá-lo a triunfar sobre ela. A partir do testemunho das Escrituras, entendemos que Ele não fez isso.
A ordenança de Deus da queda também significa que ela foi parte de Seu plano eterno. Antes da fundação do mundo, antes da criação de Adão e Eva e a serpente que os tentou, antes da existência de qualquer jardim ou árvore, Deus ordenou a queda para Sua glória e o bem maior de Sua criação. Ele não meramente permitiu que nossos primeiros pais fossem tentados e então esperou para reagir a qualquer escolha que eles viessem a fazer. Ele não meramente olhou através dos corredores do tempo e viu a queda. Mas a queda era uma parte do plano eterno de Deus, e Ele predeterminou ou predestinou que ela deveria e iria acontecer.
Neste ponto, uma questão muito importante surge:
“Deus é o autor do pecado?”
Esta questão pode e deve ser respondida com uma forte negativa. Deus não é o autor do pecado, nem coage o homem a pecar contra Ele. Embora Ele tenha predeterminado que a queda deveria e iria acontecer, Ele também predeterminou que ela deveria acontecer através das ações voluntárias de Satanás, Adão e Eva. Ainda que nossas mentes finitas não possam compreender plenamente como Deus pode ser absolutamente soberano sobre todo evento da história e sobre cada ato individual sem destruir a liberdade individual, as Escrituras abundam em exemplos que demonstram que isto é verdade. José foi vendido à escravidão através do pecado deliberado de seus irmãos, e ainda assim, quando a história final foi contada, José declarou: Vós, na verdade, intentastes o mal contra mim; porém Deus intentou para o bem, para fazer o que se vê neste dia, isto é, conservar muita gente com vida” (Gênesis 50:20 AA). O Filho de Deus foi crucificado como o resultado do pecado deliberado do homem e a hostilidade para com Deus, e ainda assim Deus ordenou ou predeterminou a morte de Cristo antes da fundação do mundo. Nas Escrituras nós lemos:
“… sendo este [Jesus] entregue pelo determinado desígnio e presciência de Deus, vós o matastes, crucificando-o por mão de iníquos.” -Atos 2:23
“Porque verdadeiramente se ajuntaram nesta cidade contra o teu santo Servo Jesus, ao qual ungiste, Herodes e Pôncio Pilatos, com gentios e gente de Israel, para fazerem tudo o que a tua mão e o teu propósito predeterminaram.” -Atos 4:27-28
A partir das Escrituras, nós vemos que Deus ordena ou predetermina um evento para que ele ocorra e ainda assim faz com que ele aconteça através do pecado deliberado do homem. Ele faz isso sem que seja o autor dos pecados dos homens ou coagindo-os para que o façam sem que seja da vontade deles. Homens ímpios deliberadamente pregaram Jesus Cristo à cruz e foram responsáveis por suas ações, mas o evento inteiro estava de acordo com o plano predeterminado de Deus. A queda de Satanás, e a queda da raça humana mais tarde através de Adão e Eva, foram resultados de seus próprios pecados pelos quais apenas eles são responsáveis, e ainda assim os eventos aconteceram de acordo com o ordenado, predeterminado, predestinado plano de Deus. Deus decretou um grande propósito eterno para Sua criação, e ordenou cada evento da história pelos quais tal propósito está sendo cumprido. Nada, nem mesmo a queda do homem ou a morte do Filho de Deus, ocorre à parte do decreto soberano de Deus.
“Ó profundidade da riqueza, tanto da sabedoria como do conhecimento de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos, e quão inescrutáveis, os seus caminhos! Quem, pois, conheceu a mente do Senhor? Ou quem foi o seu conselheiro? Ou quem primeiro deu a ele para que lhe venha a ser restituído? Porque dele, e por meio dele, e para ele são todas as coisas. A ele, pois, a glória eternamente. Amém!” -Romanos 11:33-36
“…nele, digo, no qual fomos também feitos herança, predestinados segundo o propósito daquele que faz todas as coisas conforme o conselho da sua vontade…” -Efésios 1:11
QUAL O PROPÓSITO ETERNO DE DEUS NA QUEDA?
Tendo demonstrado que a queda foi resultado da desobediência deliberada da criatura e ainda assim de acordo com o eterno propósito de Deus, agora é necessário que nos esforcemos por conhecer tal propósito eterno. À luz do mal e do sofrimento que resultaram da queda, pode parecer difícil aceitar que possa ter havido qualquer bom propósito nela. Todavia, a Palavra de Deus nos assegura que existe tal propósito.
Sabemos a partir das Escrituras que a criação do universo, a queda do homem, a nação de Israel, a cruz de Cristo, a Igreja, e o julgamento das nações têm um grande e derradeiro propósito: Que a plenitude dos atributos de Deus seja revelada a Sua criação e que toda a criação O conheça, O glorifique, e deleite-se plenamente n’Ele como Deus.
A Plena Revelação dos Atributos de Deus
Deus criou o universo para ser um teatro sobre o qual Ele possa exibir a infinita glória e valor de Seu ser e seus atributos, para que Ele seja plenamente conhecido, adorado, e apreciado por Sua criação. Foi dito por muitos que a queda do homem é o céu negro sobre o qual as estrelas dos atributos de Deus brilham com a maior intensidade de glória. É apenas através da queda e o advento do mal que a plenitude do caráter de Deus pode ser verdadeiramente conhecida.
Quando um Cristão adora a Deus, quais são os atributos que lhe parecem mais queridos? Não são a misericórdia, a graça e o amor incondicional de Deus? Não são estes atributos divinos mais exaltados em todos os grandes hinos da Igreja? Mas como estes atributos poderiam ser conhecidos senão através da queda do homem? O amor incondicional somente pode ser manifesto sobre homens que não correspondem às condições. A misericórdia somente pode ser derramada do trono de Deus sobre homens que merecem a condenação. A graça somente pode ser concedida a homens que não fizeram nada para merecê-la. Nossa decadência é nosso feito, pelo qual somos obrigados a assumir plena responsabilidade. Ainda assim é através do teatro negro de nossa decadência que a graça e a misericórdia de Deus são postas no centro do palco e brilham sobre um público tanto de homens quanto de anjos. É na salvação dos homens caídos que a sabedoria, a graça e a misericórdia de Deus são reveladas, não apenas ao homem, mas também a todo ser criado nos céus, na terra e no inferno.
Mas Deus, sendo rico em misericórdia, por causa do grande amor com que nos amou, e estando nós mortos em nossos delitos, nos deu vida juntamente com Cristo (pela graça sois salvos), e, juntamente com ele, nos ressuscitou, e nos fez assentar nos lugares celestiais em Cristo Jesus para mostrar, nos séculos vindouros, a suprema riqueza da sua graça, em bondade para conosco, em Cristo Jesus. -Efésios 2:4-7
A mim, o menor de todos os santos, me foi dada esta graça de pregar aos gentios o evangelho das insondáveis riquezas de Cristo e manifestar qual seja a dispensação do mistério, desde os séculos, oculto em Deus, que criou todas as coisas, para que, pela igreja, a multiforme sabedoria de Deus se torne conhecida, agora, dos principados e potestades nos lugares celestiais. -Efésios 3:8-10
A Plena Revelação das Glórias de Cristo
A maior obra de Deus é a morte e a ressurreição do Filho de Deus para a salvação do povo de Deus. Contudo, se o homem não tivesse caído, não haveria Calvário e nem Salvador. A própria coisa que mais elucida a Deus (João 1:18), nos atrai para Ele (João 12:32), e faz com que O amemos (1 João 4:10, 19) desapareceria. O que tomaria seu lugar? Que outros meios poderiam ter sido usados para demonstrar as imensuráveis misericórdias de Deus? Cristo crucificado é o grande tema de todo digno hino, sermão, conversação, e pensamento cristãos. Sem a queda, a redenção seria desconhecida a nós. Nós seríamos como os anjos, anelando perscrutar algo que nós nunca poderíamos experimentar (1 Pedro 1:12).
É errado, e beira a blasfêmia, até mesmo insinuar que a cruz de Cristo foi um mero Plano “B” que foi posto em prática somente por causa da escolha errada de Adão no jardim. A cruz é o evento principal para o qual qualquer outra obra da providência de Deus aponta. Todas as coisas permanecem em sua sombra. De uma forma, a cruz foi necessária por causa da queda, mas por outro lado, a queda foi necessária para que as glórias de Deus na cruz de Cristo pudessem se dar a conhecer plenamente.
A Plena Revelação da Dependência da Criatura
Uma das verdades mais impressionantes sobre Deus é que Ele é absolutamente livre de qualquer necessidade ou dependência (Atos 17:24-25). Sua existência, o cumprimento de Sua vontade, e Sua alegria ou beneplácito não dependem de nada nem ninguém fora de Si mesmo. Ele é o único ser que é de fato coexistente, autossustentado, autossuficiente, independente e livre. Todos os outros seres derivam suas vidas e felicidades de Deus, mas Deus encontra tudo o que é necessário para Sua própria existência e perfeita alegria em Si mesmo (Salmo 16:11; Salmo 36:9).
A existência do universo requer não apenas o ato inicial da criação, mas também o contínuo poder de Deus para sustentá-lo (Hebreus 1:3). Se Ele retirasse Seu poder mesmo por um momento, tudo se tornaria caos e destruição. Esta mesma verdade pode ser aplicada ao caráter dos seres morais, quer sejam anjos ou homens. Adão no paraíso e Satanás no céu, ainda que tenham sido criados justos e santos, não poderiam permanecer em pé à parte da graça sustentadora de um Deus Todo-Poderoso. Quão menos somos nós capazes de permanecer em pé e quão mais rapidamente cairíamos à parte da mesma graça sustentadora? A queda, portanto, fornece o maior exemplo de nossa constante carência de Deus. Se não podemos continuar nossa existência além de nosso próximo fôlego exceto pela preservação de Deus, quão menos somos capazes de manter qualquer aparência de justiça diante d’Ele à parte de Sua graça? (João 15:4-5; Filipenses 2:12-13)
OBS: ESTE TEXTO FAZ PARTE DO LIVRO:
 A Queda de Adão [A Verdade sobre o Homem – 2/13] por Paul Washer 
http://voltemosaoevangelho.com/blog/2012/07/paul-washer-a-queda-de-adao-a-verdade-sobre-o-homem-210/

Copyright © por Paul David Washer, Sociedade Missionária HeartCry. 
Publicado por Granted Ministries Press, uma divisão de Granted Ministries. 
Permissões: Você está autorizado e incentivado a reproduzir e distribuir este material em qualquer formato, desde que informe o autor, seu ministério e o tradutor, não altere o conteúdo original e não o utilize para fins comerciais.




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