terça-feira, 9 de dezembro de 2014

APOCALIPSE: SUGESTÕES INTERPRETATIVAS - PARTE 1!



                       <<<<NÃO HÁ NESTE ESTUDO QUALQUER PRETENSÃO DE SOLUCIONAR EM TODOS OS NÍVEIS AS DIFICULDADES EXISTENTES NA INTERPRETAÇÃO DESTE LIVRO.                        
O OBJETIVO É APENAS O DE APRESENTAR ALGUMAS SUGESTÕES HERMENÊUTICAS E EXEGÉTICAS CONSTANTES NO LIVRO ''ENTENDES O QUE LÊS?" PUBLICADO PELA EDITORA VIDA NOVA, DE AUTORIA DOS PROFESSORES GORDON D. FEE E DOUGLAS STUART. >>>>

Ao se fazer a interpretação da Bíblia, a "exegese" deve vir em primeiro lugar, no entanto, no caso deste livro, a "exegese' é especialmente crucial.
 É preciso também se observar que este é um livro sobre o qual muitos livros e panfletos populares têm sido escritos, e em quase todos eles não é feito qualquer tipo de "exegese". Normalmente vão direto para a "hermenêutica", e esta usualmente toma a forma de especulações fantasiosas, que o próprio João como autor nunca poderia ter pretendido ou compreendido.

PRIMEIRA PARTE:  
                                    'A NATUREZA DO APOCALIPSE'.
                                          
                                             Assim como o é para a maioria dos demais gêneros bíblicos, a primeira chave exegética a ser usada em apocalipse, é examinar em que tipo de LITERATURA ele se encaixa. No caso específico deste livro há alguns tipos diferentes de problemas a ser enfrentado, pois o "Apocalipse" é uma combinação sem igual, finamente harmonizada de três tipos literários distintos: O APOCALÍPTICO, A PROFECIA, E A CARTA. Além disto, o APOCALÍPTICO, a base principal deste livro, é uma forma literária não existente em nossos dias. A respeito dos outros livros da Bíblia, ainda que haja alguma diferença em relação aos nossos próprios exemplos, somos possuidores da compreensão básica daquilo que é uma epístola ou uma narrativa, um salmo ou um provérbio. Mas,  simplesmente, no caso da "apocalíptica" não possuímos nada, o que faz com que seja especialmente importante, neste caso, uma visão nítida do tipo literário com que estamos lidando.


O APOCALIPSE COMO APOCALÍPTICA; 
O nome "Apocalipse" [lit. Revelação] é uma descrição do gênero literário que recebe este nome, e representa apenas um -- embora muito especial, sem dúvida alguma -- das várias dezenas de apocalipses que eram bem conhecidos tanto pelos judeus, quanto pelos cristãos desde cerca de 200 a.C até 200 d.C. Para nós é muito importante saber, que mesmo existindo numa variedade de tipos, estes apocalipses não canônicos possuem em relação ao Apocalipse, canônico, algumas características em comum, como mostraremos a seguir: 

1- A literatura vétero-testamentária, especialmente conforme a encontrada em Ezequiel, Daniel, Zacarias e em alguns trechos de Isaías se constitui na raiz mestre da apocalíptica. De acordo com alguns casos específicos da literatura profética, o foco da "apocalíptica" era o julgamento e a salvação vindoura, mas apesar de ter nascido em meio a perseguições ou em um tempo de opressão, a grande preocupação da "apocalíptica" já não era com a atividade de Deus DENTRO da história. Os escritores dos "apocalipses" aguardavam exclusivamente o tempo em que Deus levaria a história a um FIM violento e radical, um fim que significaria o triunfo da justiça e o julgamento final de todo o mal.
2- Os "apocalipses" diferentemente da maioria dos livros proféticos, são obras literárias desde o início. Enquanto os profetas eram porta-vozes de Deus, cujos oráculos falados foram posteriormente registrados por escrito e colecionados em um livro, um "apocalipse" é uma forma de literatura possuindo uma estrutura e forma escrita. EX: João em 1,19 recebe a ordem: "escreve, pois, as coisas que viste", ao passo que os profetas foram ordenados a falar aquilo que ouviram ou viram.
3- Com maior frequência, a "matéria" da apocalíptica é apresentada na forma de visões e sonhos, sua linguagem é enigmática ( os sentidos são ocultos), e simbólica. Por essa causa a maioria dos " apocalipses" continha dispositivos literários cujo objetivo era o de poder dar ao livro uma impressão da mais extrema antiguidade. 
O mais importante destes dispositivos era a "pseudonimidade", ou seja, transmitia ao leitor a aparência de ter sido escrito por personagens antigas [Enoque, Baruque, Esdras, etc] que recebiam a ordem de SELAR tudo para se revelar em uma data posterior, e "este dia futuro" sendo, naturalmente, a época em que o livro estava sendo escrito e lido. 
4- As figuras de linguagem da "apocalíptica" frequentemente são forma de fantasia, e não realidade. Por contraste, os profetas não-apocalípticos também faziam uso regular da linguagem simbólica, mas rotineiramente envolviam figuras reais, como, por exemplo, O SAL (Mt 5,13); pombas (Os 7,11), pães semi-assados (Os 7,8), etc. Já a maior parte das figuras usadas na "apocalítica", pertence ao mundo da fantasia. Ex: uma besta com dez chifres e sete cabeças, uma mulher vestida do sol, gafanhotos com caudas de escorpiões e com cabeças humanas, etc,. Mesmo a fantasia não aparecendo precisamente nos itens citados, - pois, sabemos o que são bestas, chifres, caudas, escorpiões, - ela é nitidamente mostrada na combinação sobrenatural destes elementos.
5- Por serem literários, a maioria dos "apocalipses" eram muito formalmente estilizados, ou seja, recebiam um aspecto decorativo tal como dividir o tempo e os eventos em pacotes bem organizados, além de uma grande estima pelo uso simbólico dos números. Como consequência, o produto final normalmente tem as visões em conjuntos cuidadosamente dispostos, frequentemente numerados, e estes conjuntos, quando são unidos expressam alguma coisa (ex. julgamento) sem necessariamente fazer ou sugerir, que cada quadro separado venha seguir imediatamente o anterior. 


O apocalipse de João se enquadra perfeitamente em todas as características da "apocalíptica", porém, há UMA onde se nota certa diferença específica, e esta única diferença é tão importante, que faz de alguma maneira o "apocalipse" de João pertencer a um mundo inteiramente diferente. A característica é que: O APOCALIPSE DE JOÃO NÃO É PSEUDONÍMICO. Neste ponto, João não sentia necessidade de seguir a fórmula regular e usual. Se deixou ser reconhecido pelos seus leitores, e através das sete cartas [caps. 2 e 3], falou a igrejas conhecidas da Ásia Menor, que eram suas contemporâneas e "companheiras na tribulação". Além disto, lhe foi ordenado: "NÃO SELES as palavras da profecia deste livro, porque o tempo está próximo" (22,10).



O APOCALIPSE  COMO PROFECIA: 
A principal razão para que o "apocalipse canônico " não seja "pseudonímico" muito provavelmente esteja na forma como João entendia o fim dos tempos, a forma do: SENDO JÁ/AINDA NÃO! 
                [ Para entender o real significado de "sendo já/ainda não" precisamos primeiramente saber que o arcabouço básico do NT  é escatológico.   
A escatologia tem a ver com o fim, assim que deus encerrar esta era. O pensamento da maioria dos judeus nos dias de Jesus era escatológico, ou seja, imaginavam estar vivendo na última virada do tempo, quando, então, Deus interviria na história dando um fim a esta era e introduzindo a era do "porvir". 
Quando João Batista anunciou que a vinda do fim estava muito próxima, e batizou o Messias de Deus, o fervor escatológico alcançou a temperatura máxima, pois, o Messias estava por perto e seria ele o introdutor da nova era do Espírito.(lc 3.7-17). 

Jesus veio e anunciou que o reino vindouro estava próximo, no seu ministério. Expulsou demônios, operou milagres, de livre vontade aceitou os rejeitados e pecadores, os sinais do anúncio de que o fim se iniciara.
Todos com muita atenção o observavam para ver se ele era realmente 'Aquele que havia de vir.' Quando ele foi crucificado as luzes se apagaram, mas de repente houve algo glorioso: "a ressurreição". Ao aparecer a muitos de seus seguidores, estes pensavam: "será agora a restauração do reino de Israel"?   Então ele voltou ao Pai e derramou o Espírito prometido, fazendo surgir problemas para a igreja primitiva, e que nos afetam até hoje também. A vinda do espírito em plenitude e poder, com sinais e maravilhas, e a instituição da Nova Aliança eram sinais de que a nova era chegara, mas aparentemente o final não havia chegado. 
Como entender, qual a explicação? 
A partir do sermão de Pedro em Atos 3, entre os cristãos primitivos iniciou-se o entendimento de que Jesus não viera para introduzir o fim "definitivo", mas o "começo" do fim. Perceberam que, com a morte e a ressurreição, com a vinda do Espírito, a bênção e os benefícios da vida eterna em certo sentido "JÁ" chegaram, mas em outro sentido, o fim "AINDA NÃO" aconteceu.  Vivemos então no "JÁ" mas, "AINDA NÃO" , e era esta a visão escatológica de João.]
João ao escrever o seu "apocalipse" não está simplesmente prevendo o fim. Sabe que o fim já começou com a vinda de Jesus. O advento do Espírito é para este modo de entender algo crucial. Enquanto os "apocaliptistas" anteriores escreveram em nome das figuras proféticas do passado, porque viviam na era do "Espírito Apagado" esperando pelo a promessa profética do derramamento do Espírito na nova era, João por outro lado "estava no Espírito" quando lhe foi ordenado escrever aquilo que via (Ap 1.10,11) podendo assim chamar seu livro de "esta profecia" (1.3; 22.18,19) e dizer, que o "testemunho de Jesus" em prol do que ele e as igrejas estavam sofrendo (1.9; 20.4) "é o espírito da profecia". Isto, provavelmente significa que a mensagem de Jesus, atestada por Ele e da qual João e as igrejas testificam é a evidência clara de que o Espírito profético viera.
Portanto, acima de tudo, a responsabilidade pelo fato do "apocalipse' de João ser diferente é a combinação de elementos apocalípticos e proféticos.
 De um lado o livro está escrito em moldes apocalípticos e tem a maioria das características da apocalíptica, ou seja, nasceu na perseguição, tem a intenção de falar acerca do fim  com o triunfo de Cristo e da sua Igreja, além de ser uma obra de literatura cuidadosamente construída fazendo uso de uma linguagem enigmática e de um rico simbolismo de fantasia e números. 
Por outro lado, João claramente pretende que seu "apocalipse" seja uma palavra profética à igreja. Seu livro não devia ser selado para o futuro. Era uma palavra da parte de Deus para a situação pelas quais as sete igrejas estavam passando no presente. Lembremos que "profetizar" não significa primariamente predizer o futuro, mas, sim, proclamar a palavra de Deus no presente, palavra esta que usualmente tem como seu conteúdo o julgamento e a salvação vindouros. Notemos que no Apocalipse, até mesmo as sete cartas possuem este cunho profético. Assim, temos aqui, pois, a "palavra profética" de Deus a algumas igrejas nos anos finais do século I, igrejas que estavam sofrendo perseguição de fora, além de uma visível decadência interna.
  
O APOCALIPSE COMO EPÍSTOLA: 
Finalmente, deve ser notado que esta combinação de elementos "apocalípticos e proféticos" foi colocada na forma de uma carta. 
Quando lemos por exemplo, 1.4-7 e 22.21 notaremos a presença de todas as características da forma "de carta". Além do mais, João trata seus leitores na fórmula: "primeira pessoa/segunda pessoa" [eu...vós]. Logo, na sua forma final, o Apocalipse foi enviado por João como uma carta às sete igrejas.
A importância deste fato está no aspecto ocasional, presente em todas as epístolas, e que também está presente em Apocalipse. 
Foi ocasionado pelo menos parcialmente pelas necessidades das igrejas específicas às quais foi endereçado. 
Por esta razão, para interpretarmos Apocalipse da forma correta, necessitamos primeiramente compreender seu contexto histórico original.  

FIM DA PRIMEIRA DAS CINCO PARTES NAS QUAIS ESTE ESTUDO FOI DIVIDIDO. 
PARTE 2 - A NECESSIDADE DA EXEGESE!
PARTE 3 - O CONTEXTO HISTÓRICO!
PARTE 4 - O CONTEXTO LITERÁRIO!
PARTE 5 - AS QUESTÕES HERMENÊUTICAS!

Fonte bibliográfica: Livro Entendes o que Lês?, publicação da editora 
"Vida Nova": Edição de 1997  reimprimido em 2008.
Autores: Gordon D. Fee & Douglas Stuart com apêndice por Ênio R. Mueller.
Adaptação de Fabio S. Faria das páginas 217 a 232.





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